Justiça do Paraná quebra sigilo de empresário suspeito de fraudar licitações e pagar propina 

O jornalista Rodrigo Castro, que integra a equipe da coluna de Lauro Jardim, em O Globo, conta que a Justiça do Paraná determinou a quebra do sigilo bancário do empresário Adolfo Jachinski Neto e da Empresa Brasileira de Tecnologias e Sistemas (EBTS), no âmbito de um inquérito policial que apura supostos crimes de peculato, corrupção passiva e fraude em licitações.

Eis a íntegra do texto:

“Diálogos colhidos pelos investigadores indicam a existência de tratativas prévias para direcionamento de um pregão, com referências a ajustes entre participantes, elevação artificial de valores e pagamento de propina, além de menções a uma eventual influência de agentes públicos.

Um dos citados pelo empresário em gravações foi Guto Silva (PSD), ex-secretário de Cidades e braço-direito de Ratinho Jr (PSD). Guto afirma que não conhece o empresário e diz que se trata de “uma acusação antiga, já esclarecida em 2022 e sem qualquer respaldo nos fatos ou nos órgãos de controle”.

Na decisão proferida em março e obtida pela coluna, o juiz Leandro Campos afirma que a  quebra de sigilo é “imprescindível” para apurar o fluxo financeiro e identificar eventuais repasses a terceiros e movimentações incompatíveis. A medida abrange o período entre abril de 2020 e fevereiro de 2021, associado ao pagamento das notas de empenho.

A decisão cita que, “nos diálogos, há referências a agentes da Administração Estadual à época dos fatos, notadamente Luiz Augusto Silva (Guto Silva), então secretário-chefe da Casa Civil do Estado do Paraná, e Rômulo Marinho Soares, secretário de estado da Segurança Pública entre 2019 e 2022, bem como menções genéricas a pagamentos destinados a terceiros, inclusive com suposta finalidade de financiamento de campanha política”.

O inquérito foi instalado em 2022 após circular em redes sociais um vídeo apócrifo referente a uma possível fraude em um pregão promovido pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná em 2019, destinado à compra de unidades fixa e móvel de treinamento virtual de tiro policial.

O caso veio à tona em razão de um desacerto societário. De um lado, Jonny Braga cobrava uma dívida de R$ 4 milhões por ter sido alijado da sociedade da EBTS, da qual se considera fundador. Do outro, Adolfo o acusava de chantagem e tentativa de extorsão. Houve boletins de ocorrência, notícia-crime e ações na Justiça.

Em meio à tentativa de receber o montante milionário, Jonny passou a gravar conversas com Adolfo. E apresentou o material às autoridades. Foram ao menos cinco áudios com discussões sobre estratégias para ganhar uma licitação e pagamento de vantagens a terceiros. Em um deles, às vésperas do certame, o empresário investigado demonstra conhecer a dinâmica do pregão e afirma que seriam realizados lances de pequeno valor apenas para simular competitividade.

Um relatório da área técnica do TCE do Paraná chegou a apontar supostas irregularidades na licitação, entre elas a diferença de preço com outros contratos, como um de Goiás no valor de R$ 1,6 milhão para o mesmo objeto, enquanto o do Paraná era de R$ 3,8 milhões. Alguns servidores públicos chegaram a ser multados pelo tribunal.

Em depoimento à polícia, Jonny confirmou ser o responsável pelas gravações e disse ter sido informado previamente da vitória da EBTS devido a suposta atuação coordenada de concorrentes para aparentar uma disputa. Já Adolfo, em uma notícia-crime, alegou que as afirmações eram inverídicas e disse que mentiu sobre ter influência no governo apenas para se livrar das investidas de Jonny.

Em dos áudios, obtido pela coluna, Adolfo se refere a Guto Silva “a mão direita do cara” (em referência a Ratinho Jr) e diz que ele controla a agenda do governador e três secretarias. Diz:

— Ele tem a segurança debaixo dele, o Detran debaixo dele e a Celepar. As três secretarias são do Guto.

Na sequência, o empresário emenda:

— Então, assim, o cara lá dele falou pra mim “olha, o negócio é o seguinte: vamos fazer o acerto aí, tal e coisa, vamos fazer o projeto, tal e coisa, daí nós temos que puxar dinheiro pra campanha. Falei: “bom, não tem problema, não tem problema” Não saindo do meu bolso…O que eu vou fazer? É assim ou nada né, cara?

Procurado, Jonny relatou que fez as gravações em 2019 e reafirmou o conteúdo dos áudios e as acusações contra Adolfo. Segundo ele, o empresário expôs a situação para explicar o motivo pelo qual não poderia pagar a dívida que ele cobrava. Jonny disse ainda que Adolfo falou que pagava propina a agentes públicos e afirmou que foi ameaçado de morte duas vezes por um motoqueiro depois de levar o caso às autoridades.

A coluna tentou reiterados contatos, por telefone e e-mail, com Adolfo e a EBTS. Até o momento, não houve retorno. O espaço segue aberto.

Por meio de nota, Guto Silva afirmou que “não conhece o empresário citado, jamais foi sócio ou manteve qualquer relação com ele ou com a empresa mencionada” e acrescentou que “o pregão 1133/2019 foi conduzido pela Secretaria de Segurança Pública, sem qualquer participação da Casa Civil ou do então secretário

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui