“Veremos como Moro reage como político a propostas de Bolsonaro para restringir liberdades”

Renato Lessa, professor da UFF, teme que decreto de combate ao crime aprovado por Temer possa dar margem para a formação de uma “polícia política” que persiga adversários

(Renato Lessa, em entrevista para o jornal El País) – Os dois são vistos por uma parcela da população como mitos: um por ter enfrentado a corrupção, o que lhe rendeu a alcunha de super-juiz, e o outro por suas falas linha-dura com o crime. No próximo Governo, Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, e o presidente eleito, Jair Bolsonaro, irão colocar à prova o imaginário popular que os vê como “100% virtuosos”.

Renato Lessa, cientista político da Universidade Federal Fluminense, alerta: “Ambos se colocam como pessoas impolutas, mas a configuração política não é pura”. Para o professor, em um Governo cuja única base de liberalismo está na economia, existe uma tensão para que os entes subordinados ao superministério de Moro, como a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União, sejam utilizados para perseguir opositores. Isso porque Bolsonaro terá a seu dispor um decreto aprovado por Michel Temer que organiza uma força-tarefa que na prática pode se voltar contra inimigos internos. “A Polícia Federal sob Moro não pode se tornar uma polícia política contra movimentos sociais”, diz Lessa.

Pergunta. Como você vê a decisão de Moro de aceitar fazer parte do primeiro escalão do Governo de Bolsonaro?

Resposta. Eu vejo com preocupação e estranheza. Sabemos que a natureza humana é imperfeita, mas essas pessoas [Moro e Bolsonaro] se colocam como impolutas, se apresentam como mitos, 100% virtuosas. Existe um desconforto entre essa narrativa do mito e uma configuração política, que não é pura. Outra coisa: o próprio juiz Moro disse que não era apropriado que ele tivesse participação na política, pois isso colocaria sob suspeita o trabalho feito por ele e pela força-tarefa da Lava Jato. Ele admitia que essa escolha teria implicações, e uma delas é colocar em dúvida as motivações que estiveram permeando a operação.

P. Simbolicamente o que Moro significa para o Governo?

R. O presidente eleito recuperou um mote que foi muito corrente em 1964, que é o da luta contra a corrupção e a subversão, foi assim que ele se apresentou ao país. Há uma ênfase muito forte na purificação e limpeza do país dessa gente a quem ele se refere como “os vermelhos”, por mais que estes “vermelhos” tenham uma atuação dentro dos limites democráticos do Estado de Direito. Após ser eleito, Bolsonaro não agiu como se esperava de um presidente eleito, não disse que estas pessoas fazem parte do país, não pacificou o assunto. Essa passagem de Moro para a política, do ponto de vista do novo Governo, é um golpe de mídia muito forte. Mostra que eles estão comprometidos com o combate à corrupção. Como se o juiz fosse uma bala de prata contra a corrupção, mas sabemos que na política as coisas não funcionam assim.

P. Como você vê a atuação da Polícia Federal sob o comando de Moro?

R. O presidente Michel Temer editou um decreto em outubro que cria uma força-tarefa para lidar com o crime organizado. Nesse decreto, o crime está associado como uma ameaça ao Estado e às instituições, logo cria-se a figura dos inimigos internos. É uma abertura para a reinserção no direito brasileiro do crime político. O traficante já está enquadrado direito penal. Quando associo organização criminosa a uma ameaça ao Estado e às instituições, isso aponta para movimentos políticos que discordam de políticas do Governo, como o Movimento dos Sem Terra ou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, cuja existência é legitima segundo a Constituição. Então está se desenhando para o Bolsonaro, com o auxílio do Temer, a criação de uma polícia política. A expectativa é de que, com o Moro na Justiça, a Polícia Federal possa ser empregada como esta polícia política, fiscalizando e reprimindo essas organizações que não são traficantes ou milicianos.

P. Como deverá ser a relação do novo Governo com o Congresso?

R. O quadro é complicadíssimo. Essas contas de que o presidente eleito dispõe de tantos deputados, isso é coisa de planilha. A interação humana é diferente. Já de início está se desenhando um problema, que é a recusa da barganha [distribuição de ministérios em troca de apoio político], o que denota um entendimento precário do que é a atividade parlamentar e da negociação. Isso [barganhas] ocorre em qualquer parlamento do mundo. O presidente eleito parece achar que qualquer barganha política é sempre criminosa. Eu acho que pode haver uma relação turbulenta com o Congresso e uma eventual dificuldade na formação da maioria.

P. Acha que Moro com um cargo de superministro pode assustar o Congresso?

R. Acho que pode haver atrito com o Congresso pelo fato do Moro estar no controle da Polícia Federal, que foi na Lava Jato um dos pilares da operação. Isso pode entrar como elemento de atemorização, mas vale lembrar que Moro não será o operador direto com os parlamentares. Ele poderá ter o poder de intimidação, mas não será interlocutor. Essa tarefa deverá caber ao futuro ministro chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni, que nunca foi um deputado muito popular, no sentido de construir consenso.

P. Bolsonaro se apresenta como um outsider da política. Que relação Moro tem com essa suposta nova política?

R. Vejo como uma espécie de corolário. Parte do comportamento do Moro nesse processo todo foi muito convergente com o processo de desconstrução da classe política brasileira. Não digo que houve uma intencionalidade, mas no processo, o que resultou disso, foi a desconfiguração dessa classe política que criou um ambiente propício para a vitória da candidatura da direita.

P. A Controladoria Geral da União deve ficar sob a batuta de Moro. O que esperar do órgão?

R. Com certeza podemos esperar uma CGU mais atuante. Acredito que os servidores da controladoria devem estar comemorando ir para o guarda-chuva do ministério de Moro. Agora, também existe o risco de que ela seja utilizada para perseguir entes públicos que não sejam alinhados com os planos do Governo. Vai depender da ênfase política que for dada à fiscalização, a ênfase e a direção… Procurar pelo em ovo, ou ser mais leniente.

 

11 COMENTÁRIOS

  1. E vejo quem só olha o PT, que faz disso uma obsessão, precisa de uma psiquiatra para ver pq está tão magoado e porque nao consegue abrir os olhos e ver que essa mágoa provavelmente o fez votar em quem vc achou que ia combater em seu nome e do seu ódio por este partido. Seria mais oportuno ao pais não se ter combate entre cidadaos, mas se trabalhar para a prosperidade…coisa que Amoedo se dispunha, por exemplo? …mas um sem numero de curitibanos precisava execrar o ódio, então não importou a qualificação do candidato, mas a capacidade de ser o interlocutor do que de mais podre se tem no interior, coisas que dá vergonha de dizer no divã. Esse sim foi levado ao poder, o lado sombrio de 70% da capital do Paraná. Velha tática dividir para dominar. Seu filho está agora jogando Age of Empires e aprendendo isso, pode conferir.
    Nao verificar as estatísticas de dividas com a justiça econômica ou criminal da ficha corrida do congresso recém eleito é um sintoma claro de obsessão pelo pt, que faz com que o resto passe, o pt fica. Assim como deu exemplo o judiciário. O PMDB ofertou Cunha, o PSDB ofertou Aécio (livre por aí) , o PP ofertou e depois recolheu vários inexpressíveis, todos como bois de piranha e o PT se manteve lá… o líder, o protagonista, o malfeitor. É claro que o Pt magoou muitas pessoas que votavam no partido, que almejavam uma conduta diferente do habitue em Brasilia, mas no frigir do ovos, enquanto estão todos de olho no PT … os cães ladram e as caravanas passam…

  2. Impressionante é ver que uma pessoa que prestou serviço à ditadura continua ávida por “servir ” a pátria, é estudo de caso para neurociência que uma pessoa que participou ativamente de uma coisa horrível, sinta falta por repetir e se orgulhe de nao ter amadurecido e resolvido seus conflitos internos. Quantos brasileiros assim estão ávidos por se cadastrar como snipers voluntários…acordam à noite falando: sim senhor, nao senhor, às ordens comandante….

    Meu filho estudou no CMC e graças a Deus teve aula de historia, geografia, filosofia e sociologia e aprendeu sobre todos regimes políticos, geopolíticos, de governo, de economia e assim por diante e e hoje sabe identificar discursos, sabe até fazer a prova do Instituto Rio Branco se precisa. Ninguém do CMC, durante toda a estadia dele por lá, chamou o golpe de 64 de movimento, ninguém sentia orgulho do feito passado por antecessores …nem no colegio militar de curitiba se doutrina adolescentes à direita ou à esquerda, mas tem gente que quer … tem gente que nao consegue morrer em paz se nao impor ao próximo a sua visão, e como até agora nao foi possivel mediante ponto e contraponto que o fascismo prosperasse no Brasil, vai na força mesmo pq os meios justificam os fins.

  3. Enquanto houver demandas sociais imensas como acontece no Brasil, haverá a esquerda e as bases que a sustentam. Simples assim. Ou alguém já ouviu falar em MST, MTST, e movimentos desse tipo na Suíça, no Japão, na Noruega?

    • Uma equação tão simples … A CNBB ajudou bem na aula de cálculo das mazelas sociais e demonstrou claramente: Desigualdade = Injustiça = Violência

      Porque nosso povo dito cristão não quer imitar a igualdade presente na noruega, quer mesmo é ter o seu próprio Anders Breivik?

    • Excelente e inteligente contraponto, Ricardo R.! A questão não tanto agride ideologias em si, mas sim os motivos que fundamentam seus surgimentos: revolta! Suas palavras contêm a razão de tudo: desigualdade = injustiça = violência. A equação mais absurda, degenerada e inumana existente nesta nossa sociedade global de tantas maracutaias e egocentrismo desvairado.
      Parabéns, Ricardo R.! Valeu!!

  4. Cientista político? O que é isso? El Pais é sucedânea espanhola da Folha de SP. Para esses caras sentadinho sem suas cadeiras está tudo errado; nenhuma palavra sobre os crápulas e criminosas lesa-pátria petistas e correlatos que estabeleceram o maior esquema de corrupção público-privada do planeta. O país quis acabar com isso e estão aí aqueles que se colocaram à frente nessa luta. O resto, como disse Roberto Carlos, que vá para o inferno!

  5. Esse Renato Lessa é um gênio. Quiça a puc emprestasse ele para dar umas banda em Curitiba. Já vi ele falar e sinceramente, vc olha e pensa nossa que raciocinio esse cientista tem!

  6. Eu fui professor de três universidades, tanto na graduação quanto em pós-graduação nos três níveis (mestrado, doutorado e pós-doutorado) e nesses longos anos durante os quais labutei diuturnamente, NUNCA fui “contaminado” pelo “passarinho vermelho” que costuma infestar a classe docente e, logicamente, a discente (fácil massa de manobra que empobrece cada vez mais a cada ano que decorre).
    Curiosamente, esta “doença incurável” advém de há longas décadas. “Academia” sempre foi sinônimo (falso) de “revolução ideológica” (sic), bem ao surrado estilo da famigerada frase “há governo? sou contra!” Típica frase da retrógrada década de 1960, quando em todo nosso continente ecoavam os gritos histéricos e ensandecidos de “el Che!”, repetidos à exaustão por largas massas alienadas, ignaras, idiotizadas, de jovens “sem eira nem beira”, perdidos num universo difuso, misto de imbecilidade, incultura e burrice potencializada.
    Não é à toa que minha primeira tese (1976) – “O Homem: Esse projeto mal-acabado” causou tanto furor, até das hostes religiosas, historicamente alinhadas às ideologias ditas “de esquerda” (frise-se: em tese e apenas em tese, visto não existirem na práxis social).
    Dessarte, não me surpreende em absolutamente nada o posicionamento do ora entrevistado, professor universitário Renato Lessa. Dificilmente encontraremos na Academia (lato sensu) um docente que ostente perfil verdadeiramente democrático; invariavelmente, a tendência preponderante nesse meio soe ser a “esquerda recalcitrante”, nada obstante sequer possua um único fundamento sólido que a sustente. E – frise-se – esta “característica” não é exclusividade brasileira, mas ‘standard’ mundializado. Infelizmente.

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