Apenas 2,2% dos brasileiros confiam no Governo Federal. Quando se trata do Congresso Nacional e dos partidos políticos, o percentual é ainda menor: 0,6% e 0,2%, respectivamente, segundo a última pesquisa CNT/MDA, divulgada em maio. Essa desconfiança com o mundo político se manifesta também nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da República, que alcança índices recordes nos levantamentos de todos os institutos.
Segundo o Datafolha, por exemplo, os votos brancos e nulos lideram a corrida presidencial e 33% do eleitorado não tem candidato nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o pré-candidato com mais intenções de voto (30%) — e também a maior rejeição (46%) —, mas cuja candidatura mal pode ser vista no horizonte, por conta de sua condenação à prisão em segunda instância. Nesse contexto, em que os principais candidatos partem de uma rejeição de pelo menos 40%, o espaço para ampliar o eleitorado se torna mais restrito. E fica mais fácil machucar as candidaturas dos adversários.
O cientista político Antônio Lavareda destaca que o repúdio à política não é um fenômeno brasileiro — na última eleição norte-americana, tanto Hillary Clinton quanto Donald Trump tinham rejeições superiores a 50%. “Cresceu o escrutínio, o exame e a análise dos candidatos pelo eleitorado”, avalia. Mas, segundo Lavareda, à medida que a campanha ocorrer no Brasil, a rejeição deve ceder. “Quando a campanha começa, a vida pregressa dos candidatos, suas realizações, o que fizeram de bom ou de mau, tudo passa a ser indicador de caráter dos candidatos mais importantes, mais que do que sua própria retórica”.
O discurso do outsider, de alguém que não participa do jogo político, parece desfrutar de uma adesão maior na sociedade, diz Lavareda, que ressalva: isso não foi o bastante para sustentar na corrida presidencial nomes como o apresentador Luciano Huck e Joaquim Barbosa. Bolsonaro se vale do discurso, mas tem décadas de Congresso Nacional. “Em uma eleição geral como a brasileira, com 20.000 candidatos, fica difícil a emergência de nomes realmente novos”, diz o cientista político, para quem as análises anteriores à campanha oficial têm sido bem mais dinâmicas do que as variações dos cenários eleitorais. “Essa articulação política não tem repercussão propriamente eleitoral. É a propaganda que sistematiza os programas dos candidatos. É a propaganda que atinge o eleitor”.
