Por Cláudio Henrique de Castro – Meus amigos, o futebol brasileiro está de cabeça para baixo, um a um é o retrato cuspido dessa bagunça.
O escrete entrou em campo com uma pasmaceira danada, errando passes aos borbotões e sem reter a pelota no meio-campo. Parece que a bola foge dos fracos.
Começo analisando a cozinha: Alisson fez milagre no fim, mas ficou vendido no gol de cobertura de Saibari, porque a nossa zaga foi uma mãe bondosa.
Marquinhos e Gabriel Magalhães bateram cabeça e deixaram uma avenida nas costas. Nas laterais, o bumba-meu-boi de sempre: Ibañez jogou improvisado, levou amarelo e saiu correndo risco; Douglas Santos até cruzou uma bola boa, mas não segurou os avanços de Hakimi.
No meio de campo, uma linha que parecia carregar piano. Casemiro estava pesado, levou cartão bobo e acabou sacado; Bruno Guimarães tentou dar verticalidade e salvou-se ao iniciar a jogada do gol; mas Lucas Paquetá esteve engessado na criação, apesar de quase marcar um belo voleio.
Na frente, Igor Thiago ficou isolado, sem receber uma bola decente. Raphinha correu muito e produziu pouco, os cremes perfumados não funcionam em campo, aliás segundo o menino, ele deveria estar em férias – está no castigo, vestindo a farda amarela.
Quem resolveu na base do talento individual foi Vinicius Jr., que limpou a jogada e soltou uma bomba cruzada para decretar o empate.
Dos que entraram, Danilo e Fabinho fecharam um pouco a retaguarda, enquanto Matheus Cunha e Luiz Henrique deram correria, mas sem nenhuma organização coletiva.
É muito pouco, uma miséria, para quem quer ser hexacampeão.
Doravante, o buraco é mais embaixo.
Descobriu-se a razão para a Copa ser disputada em vários países, o presidente da CBF, Samir Xaud, foi pego no flagra num escândalo (mais um) vergonhoso.
Ao que foi noticiado, o sujeito teve o desplante de usar os recursos da entidade — dinheiro que deveria ir para a base e para o desenvolvimento do nosso futebol — para bancar hotel de luxo de R$ 59 mil em Nova York para a amante, Camila Cristina Andrade.
Montou uma engenharia cafajeste para deixar a esposa no México e a outra em Manhattan. Quando a imprensa descobriu, o cartola correu para pagar do próprio bolso para tentar abafar a sujeira.
O futebol brasileiro está sangrando nas mãos de dirigentes que tratam a dinheirama da bola como extensão de seus prazeres privados.
A Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos mal começou e já carrega nas costas a sua primeira e mais hedionda cicatriz, onde o preconceito veste o uniforme da lei. A FIFA vendeu como o idílio da fraternidade universal revelou-se um deserto de sensibilidade humana, contaminado pelo vírus da xenofobia.
Vejam a humilhação imposta à jornalista brasileira Karine Alves, da TV Globo, uma profissionalíssima de nossa imprensa, constrangida por agentes ríspidos que lhe ordenaram levantar o próprio cabelo na chegada ao país.
Que espécie de fiscalização necessita vasculhar os cachos de uma mulher negra, senão aquela que busca ali o pretexto para exercer sua soberba imperial? E o que dizer do escândalo que barrou o somali Omar Artan, eleito o melhor árbitro da África, impedido de entrar no país para apitar no maior palco da Terra? É de uma burrice e de uma crueldade assombrosas.
Enquanto torcedores africanos e iraquianos são barrados por restrições covardes de visto, um analista do VAR exibe sorridente diante das câmeras mundiais um sinal de supremacismo branco, sem sofrer a devida reprimenda fulminante da entidade máxima do esporte.
Essa Copa americana, orquestrada sob a retórica odiosa que emana de Washington, transformou o esporte em um balcão de exclusão, onde as delegações e profissionais do Sul Global são recebidos com desconfiança e revista excessiva.
A FIFA assiste a tudo com um silêncio obsequioso e covarde.
É a vitória do cinismo sobre a poesia da bola.
O futebol, que deveria ser o abraço dramático e eterno entre os povos, foi reduzido a um gueto de discriminação burocrática, onde os donos da festa mostram que só aceitam os negros se eles estiverem submetidos às suas regras de cabresto.
Em tempo: Ancelotti, mascando chicletes, como um dromedário, recebeu cerca de R$ 65 milhões em salários da CBF desde que assumiu oficialmente o comando da Seleção Brasileira em maio de 2025. Por mês, recebe aproximadamente R$ 5 milhões, por ano, o valor corresponde a 9,5 milhões de Euros (cerca de R$ 55,8 milhões na cotação atual).
Resumo de tudo: a competência custa caro.
