Reformas, incêndios e fogueiras das vaidades

“A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.” (ApparícioTorelly, ‘Barão de Itararé’).

 Por Estevão de Rezende Martins*  – O estado brasileiro lembra um desses navios da série de aventuras “Piratas do Caribe”. Caindo aos pedaços, assombrado, pilotado por desvairados sem rumo que mereça ser mencionado como política pública digna do nome. Navega-se à vista, pelo jeito em direção seja a sargaços paralisantes seja a recifes cortantes, com naufrágio no horizonte. Urge trocar o plano de navegação e os navegadores.

Agendas “de costumes”, “reforma administrativa”, “reforma tributária”, “reforma da previdência” (dessa novela já se viveu o capítulo mais recente em 2019), ”alianças estratégicas”, “alinhamento por simpatia ou empatia ideológica” e sabe-se lá quantas insânias mais assolam o convés e os porões desse navio, à fugidia sombra de velas em frangalhos, açoitadas por ventos revoltos, e estimulado pelas mais diversas indiferenças.

A mais urgente reforma, deveriam reconhecer dirigentes e cidadãos, é a da moral pública. Capistrano de Abreu (1853-1927) ainda no século 19 emitiu um juízo pertinente e fatal sobre tal moral: a Constituição brasileira deveria ter um único artigo – “Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara”.

Ah! Quanta razão assiste a Capistrano. A invectiva seria também digna de um Nelson Rodrigues que, decênios depois, retoma o tema, ao proclamar: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

Só lamento que Nelson Rodrigues tenha posto literatura e futebol no mesmo patamar da política, ao menos da que se pratica no Brasil de 2020. É um arremedo constrangedor que envergonha a política de verdade, e encabula literatos e jogadores.

Logo se pensa na carta aberta de Jô Soares, em abril de 2019, dirigida ao titular do cargo de presidente da República, ironizando seu despreparo, sua ignorância e sua incomensurável vaidade.

Tal me faz pensar no genial samba de Billy Blanco, escrito para Dolores Duran ao final dos anos 1950, que lhe relatara experiência de discriminação racial na boate em que cantava: “A banca do distinto”. Permito-me transcrever uma estrofe, que me parece cair como uma luva nos personagens do Brasil de hoje:

“A vaidade é assim, põe o tonto no alto

E retira a escada

Mas fica por perto esperando sentada

Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão”.

A bom entendedor, meio samba basta.

Há muito o que dizer sobre reformas, mas limito-me hoje apenas a um exemplo, que bem se alinha com a necessidade da reforma moral: o fogo que consome largas partes do país, alimentado pelo fogaréu federal das vaidades.

Como é possível imaginar, como se lê amiúde nos últimos dias, nas redes e em certos comentários relatados pela imprensa, que se alegue poder ignorar no Brasil os fogos que consomem suas terras, suas florestas, seus campos, sob o pretexto de que alhures também se desmatou ou queimou, em um passado mais ou menos longínquo. Como ignorar que hoje se combate com sacrifício e denodo, na Califórnia, na Austrália, em Portugal, na Espanha, na França, na Grécia e em outros lugares o fogo que destrói, ameaça pessoas e casas, animais e plantações, estradas e redes de comunicação, para preservar vidas e condições de recuperação para amanhã?

Esses fogos atingem florestas recompostas ao longo de décadas, vítimas de conjunção de fatores como seca, calor acentuado, ventos violentos, e não raro pela ação criminosa de pirômanos. Os governos locais os combatem diuturnamente.

Também cá entre nós as variáveis climáticas atingem as zonas incendiadas, deve-se ter em conta. Não se pode, contudo, esquecer que, em especial nas franjas da Amazônia legal, desmatamento e queimada têm a ver com expansão de frentes agrícolas e pecuárias, criando – não raro – fatos consumados, sobre terras consumidas.

Que mentecaptos do ‘sul maravilha’ (e não só) palpitam criminosamente e se consideram habilitados a comentar, ardilosa e desprezivelmente, sobre o fogaréu que consome as bordas da Amazônia legal, do Pantanal ou da Chapada dos Guimarães, como “invenção caluniosa”, sem terem sentido o calor averno que consome biomas e pessoas, sem sentirem na pele as chamas que tudo consomem, nem respirar a fumaça que sufoca e tudo recobre de fuligem?

É uma operação de mau gosto e de ignorância ímpar afirmar que as labaredas vorazes seriam “intrigas da oposição” ou “conspiração internacional” para denegrir o país. O que, sim, enegrece o país é a alienação dolosa de seus dirigentes, que se entregam de mãos e pés atados aos interesses escusos dos aproveitadores do lucro fácil, depressa e a qualquer preço. E sem contrapartida – por pior que soe essa barganha aos ouvidos civilizados.

Sempre que um gestor público se alia a um grupo da sociedade, isolando, desatendendo e diabolizando os demais, escusando-se da inevitável complexidade e diversidade de um povo (pretender que não seja assim é coisa de sandeus), falta gravemente a seu dever público e prevarica no exercício do mandato que lhe foi confiado pelos eleitores.

  • Estevão de Rezende Martins, historiador, é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

 

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