Com a indicação do ex-ministro da Defesa Joaquim Silva e Luna para a diretoria-geral de Itaipu, revelada na última quinta-feira (17), o governo de Jair Bolsonaro já contabiliza a presença de mais de 30 integrantes das Forças Armadas no primeiro e o segundo escalões.

Participação tão grande de oficiais graduados ocupando altos postos da administração pública não era vista desde o fim dos 21 anos de regime militar em 1985. E é sintomática do grau de adesão da caserna aos propósitos que o capitão Jair Bolsonaro anunciou durante a campanha, dentre eles o forte combate à corrupção, a privilégios e a práticas políticas viciadas que prosperaram ao longo dos governos civis que se seguiram.

Considerando-se como sincera a disposição dos membros das Forças Armadas de ajudar nesta tarefa e do papel que têm como garantidoras da Constituição, coloca-se neste cenário uma indagação: até que ponto vai persistir o apoio militar ao governo Bolsonaro se não forem enfrentados pelo presidente casos tão constrangedores quanto o protagonizado pelo filho Flávio?

Ao invocar equivocadamente ser possuidor de foro privilegiado – excrecência que o pai sempre combateu – na tentativa de paralisar a investigação das movimentações financeiras “atípicas” que envolvem seu ex-motorista Fabrício Queiroz, o deputado Flávio Bolsonaro (senador eleito) fez uma tácita confissão de culpa e acendeu uma fagulha com potencial de reduzir a cinzas o capital de credibilidade que Jair Bolsonaro detinha nos meios militares.

É certo que o incômodo já tomou proporções preocupantes. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, se apressou em dizer em que o episódio não “atinge o governo”. Segundo ele, Bolsonaro “não vê isso como um assunto de governo, é um assunto do Flavio” – no que, até certo ponto, tem razão, desde que esqueça que o enrolado Queiroz e suas filhas estiveram abrigados também em seu gabinete parlamentar na Câmara Federal enquanto pregava moralidade como estratégia de fazer carreira e, por fim, chegar à Presidência da República.

Vozes da caserna só vêm uma solução para que as Forças Armadas se mantenham como avalista incondicional do governo: que Jair Bolsonaro jogue definitivamente o filho Flávio aos leões, contenha os outros dois garotos boquirrotos e prove reta intenção de romper com a velha política – esta mesma que incentivou os militares a manterem conveniente distância cívica dos governos Lula, Dilma e Temer e a acreditarem que Bolsonaro os representava.