Em constrangido silêncio, setores da Polícia Militar criticam o decreto assinado pela governadora Cida Borghetti que transfere para o Depen (Departamento Penitenciário do Estado) toda a responsabilidade para administrar as 37 carceragens do Paraná que abriam mais de seis mil detentos. Atualmente, elas estão sob a responsabilidade da Polícia Civil, que precisa empregar seus poucos recursos humanos (delegados, investigadores, escrivães…) só para fazer a guarda das cadeias e evitar fugas e rebeliões, deixando de lado suas atribuições de investigar, fazer inquéritos e prender.

Na aparência boa, a solução adotada pela governadora não agradou a Polícia Militar, porque, por meio do Depen, é ela, agora, que terá de destacar grande contingente para assumir a tarefa de administrar e fazer a guarda permanente do explosivo sistema das carceragens instaladas nas delegacias da Polícia Civil. Os policiais civis, no entanto, aplaudem, pois o decreto atende uma antiga reivindicação deles.

Segundo manifesto que circula nos grupos de whatsapps da Polícia Militar, a media não foi precedida de “discussão e avaliação com todos os envolvidos. Não houve reflexão e chamamento da sociedade organizada para discutir o processo e suas consequências. Mais um arremedo de solução. Mais uma falácia.”

Diz um trecho do manifesto “anônimo”, já que a disciplina militar não permite manifestações críticas em público:

A consequência direta disso será um prejuízo extremo aos cidadãos paranaenses, uma vez que a PM, responsável primeira pela prevenção ao delito, será onerada com incumbências de guarda externa das carceragens, escoltas de detentos para consultas, internamentos, audiências e outras atribuições que são de quem tem a responsabilidade sobre a administração do preso, mas que reiteradamente deixa de fazer.
A PM realiza milhões de quilômetros de deslocamentos em escoltas todos os anos.
A PM imobiliza centenas de homens diariamente na guarda externa de presídios.
A PM imobiliza equipes que deveriam estar nas ruas para custodiar presos em hospitais.
A PM deixa de atuar na prevenção e proteção do cidadão, realizando transporte e escoltas de presos para audiências judiciais.

O texto reforça que se trata de mais um lance do “jogo de empurra” e que as omissões da Polícia Civil e do Depen “oneram e prejudicam o cidadão. Contrariam uma máxima da doutrina de segurança pública de que “quem prende não cuida”. Trata-se, diz o manifesto, de “um sistema perverso, que tira o policiamento da prevenção, o policial que deveria evitar o cometimento de novos crimes, para cuidar de quem já foi preso – em mais de 95% das vezes pela própria PM. E o marginal solto fica ainda mais solto para cometer novos crimes, uma vez que a polícia ostensiva não está nas ruas para impedí-lo.”