(por Bruno Berghossian*) – O processo democrático rola ladeira abaixo com o atentado a Jair Bolsonaro (PSL). O ataque a faca ao candidato cristaliza o ambiente radicalizado que domina o país e confere traços primitivos à disputa política. Há dois caminhos no fim dessa descida: uma barreira de contenção e um precipício.
O acirramento do debate eleitoral produziu um estado de anomalia em que um cidadão julgou ser legítima a tentativa de eliminar com violência um adversário. A polarização política, nutrida por anos, abriu espaço para a convicção absurda de que a força poderia ser usada para calar alguém que pensa diferente.
Pouco importa agora se Bolsonaro tem posições radicais ou se é intolerante; ou se o autor do atentado tem problemas psicológicos. A arena política saiu do controle. Cabe aos protagonistas dessa cena a tarefa de domar o monstro —ainda que nenhum deles queira ou deva assumir sozinho sua paternidade.
Se o ataque não servir para que os líderes percebam que a radicalização precisa ser contida, e não alimentada em troca de benefícios eleitorais, desceremos os últimos metros rumo à barbárie absoluta. Dilma Rousseff, que viu de perto a ebulição desse processo, resolveu mergulhar no abismo: “O ódio, quando se planta, você colhe tempestade”. Sem um repúdio veemente, a ex-presidente se absteve de participar de um debate político razoável.
O freio do carro desgovernado também repousa sob os pés do time de Bolsonaro. Por descuido ou vontade, três de seus principais aliados pisaram no acelerador. O vice Hamilton Mourão, o senador Magno Malta e o advogado Gustavo Bebianno ameaçaram instigar divisões. “Agora é guerra”, disse o último.
Alguém acha aceitável que a eleição se transforme em batalha campal? Ainda que Bolsonaro soe antidemocrático para uma parcela significativa do eleitorado, ele tem direito de participar da disputa e defender suas plataformas —não só porque muitos o apoiam, mas porque não há outra forma de democracia.
- Jornalista, mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA), em artigo publicado na edição impressa do jornal Folha de S. Paulo.

De acordo. Tenho dito isso para as pessoas mais proximas desde que se acirraram os ânimos entre “coxinhas” e “mortadelas”. A rejeição cega às opiniões opostas não leva a nada. Desunidos, perderemos. Todos nós.