Por Danielle Freitas* – O primeiro debate televisivo entre candidatos ao governo do Paraná, transmitido pela Band na noite deste domingo (9), trouxe à tona mais do que propostas para o estado. O confronto entre Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD) expôs diferenças importantes na maneira como cada candidato constrói sua narrativa política, apresenta suas propostas e procura se relacionar com o eleitor.
O debate também foi marcado por controvérsias antes mesmo de começar. Houve críticas à decisão da Band de convidar apenas três dos oito candidatos ao governo do Paraná. A ausência de Sérgio Moro (PL), por sua vez, também repercutiu. O senador decidiu não participar do confronto e sua ausência acabou sendo mencionada diversas vezes pelos dois candidatos que estiveram no estúdio.
Críticas à parte, o debate acabou se concentrando em dois projetos políticos bastante distintos. De um lado, Requião Filho, deputado estadual e filho do ex-governador Roberto Requião. Do outro, Sandro Alex, ex-deputado federal e atual secretário de Estado, que se apresenta como continuidade do projeto político associado ao governador Ratinho Junior e ao ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca.
Já no início do debate, ficou evidente, na fala de Sandro Alex, a tentativa de retomar uma narrativa conhecida da política brasileira: o “fora PT”, o “tudo é culpa do PT” e a associação do Partido dos Trabalhadores a uma figura capaz de representar ameaça, desordem ou perigo para a sociedade. É uma construção narrativa que não é nova. A criação de um herói que precisa combater um vilão esteve presente na ascensão do bolsonarismo e em diferentes campanhas eleitorais da direita brasileira, especialmente na construção do antipetismo. O discurso deixa de discutir apenas propostas e passa a organizar a disputa política a partir da identificação de um inimigo comum. Essa estratégia dialoga com um fenômeno analisado por especialistas no debate sobre o antipetismo: a concentração do discurso sobre corrupção e problemas políticos na figura do PT, transformando o partido em uma espécie de síntese de problemas que são, na realidade, mais amplos e estruturais.
Ao falar de segurança pública, Sandro Alex repetiu a frase: “A polícia que governa, não a bandidagem”. Essa formulação constrói uma oposição facilmente compreensível: de um lado, a polícia e a ordem; de outro, a criminalidade. A política pública é apresentada a partir de uma disputa moral entre dois campos. Sandro Alex também apresentou como uma de suas propostas a unificação do número de emergência 190. A medida foi repetida ao longo do debate como uma das soluções para a segurança pública, mas está longe de ser uma novidade no debate legislativo brasileiro.
Em 2011, o então deputado federal Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP) apresentou o Projeto de Lei nº 175/2011, que determinava a adoção de um número único para emergências e segurança pública. A proposta previa justamente a utilização do 190 como número nacional para chamadas de emergência, reunindo serviços como polícia, bombeiros, atendimento médico e defesa civil. O projeto chegou a ser aprovado em comissão da Câmara dos Deputados, mas está parado em Brasília.
Sandro Alex também aposta na continuidade do governo atual. Ao longo do debate, fala repetidamente das obras realizadas durante a gestão de Ratinho Junior e apresenta resultados do governo como parte de sua própria narrativa. Em diversos momentos, sua comunicação se aproxima mais de uma defesa da administração atual do que de uma apresentação detalhada de um projeto próprio. Há também uma estratégia evidente de utilização de palavras de impacto. Expressões como “Aqui tem coragem” e “Aqui tem resultado” funcionam como slogans: frases curtas, fáceis de memorizar e que procuram associar o candidato a determinadas características antes mesmo que suas propostas sejam aprofundadas. Nas perguntas e respostas dirigidas a Requião Filho, Sandro Alex também recorreu frequentemente a qualificações como “equivocado”, “incoerente” e “mentiroso”, além de tentar associar seu adversário à imagem do PT e da esquerda.
Outro elemento presente em sua construção discursiva é a religião. Em sua fala de despedida, Sandro Alex agradeceu primeiro a Deus, depois a Ratinho Junior e, por fim, a Rafael Greca. A ordem também comunica uma hierarquia simbólica de referências políticas e pessoais. Entre suas principais bandeiras, destacou o mercado privado e a liberdade econômica, defendendo uma agenda de continuidade das políticas de desestatização. Em determinado momento, afirmou: “Não vamos deixar que isso acabe”, em referência a gestão Ratinho Junior e por fim, defendeu que “retroceder jamais”.
Já Requião Filho constrói sua narrativa por outro caminho. Sua fala se concentra na valorização dos serviços públicos, na presença do Estado e na defesa de trabalhadores e usuários desses serviços. Ao falar sobre segurança pública, por exemplo, não se limita a defender o aumento da presença policial. Fala sobre investir nos policiais que estão nas ruas, os praças, destacando os baixos salários e as longas jornadas de trabalho. A segurança, nesse caso, é apresentada também a partir das condições de trabalho daqueles que atuam diretamente na área.
O candidato também aposta na memória dos governos de seu pai, Roberto Requião. Em diferentes momentos, recupera ações realizadas durante aquelas gestões e resume sua perspectiva em uma frase: “Nós sabemos e vamos fazer”. No debate sobre o Litoral, Requião Filho reconheceu a importância da Ponte de Guaratuba, mas questionou possíveis problemas relacionados às licitações e aos acordos que envolvem a obra. Também classificou a construção como uma obra com forte componente eleitoral. Ainda sobre o Litoral, defendeu investimentos permanentes em saneamento, argumentando que a região ainda carece de infraestrutura e que o Estado precisa olhar para o litoral durante todo o ano, e não apenas durante as férias e o verão. Em relação à educação falou sobre outra política aplicada na gestão Requião: a ampliação da presença da UFPR no litoral em 2006, apresentada como forma de levar oportunidades de formação e ensino superior para outras regiões do estado.
Outro dos principais pontos de divergência esteve nas privatizações, especialmente na Copel. Requião Filho criticou a desestatização da companhia e relacionou a mudança de controle a problemas percebidos pelo consumidor, como aumento da conta de luz e demora na prestação de serviços. Sandro Alex afirmou que “os maiores acionistas da Copel são o povo paranaense”. A frase, porém, mistura duas questões diferentes: propriedade pública e participação acionária.
A privatização da Copel foi autorizada pela Lei Estadual nº 21.272, de 2022, que permitiu ao governo do Paraná alienar o controle acionário e as participações da companhia. O Estado do Paraná detém 15,9% das ações ordinárias da companhia e mantém uma ação preferencial de classe especial, a chamada golden share, que lhe garante poder de veto em determinadas situações. Isso muda a natureza da relação entre a empresa e o Estado. Se a Copel deixou de ser controlada pelo governo paranaense, em que sentido exatamente podemos dizer que ela continua sendo “do povo paranaense”? A questão não é apenas semântica. Ela envolve quem tem poder para tomar decisões sobre uma empresa responsável por um serviço essencial e qual deve ser a prioridade dessa companhia: o interesse público ou a remuneração do capital.
Requião Filho também apresentou propostas e críticas mais específicas ao longo do debate. Entre elas, a ideia de zerar o ICMS para micro e pequenas empresas no Paraná e as críticas à gestão Ratinho Junior, às licitações e às tarifas de pedágio. Também questionou Sandro Alex por elogiar a educação pública do estado. O argumento ganha uma dimensão política quando colocado diante do histórico do PSD no Paraná e das medidas adotadas durante o atual ciclo de governo, especialmente em relação aos servidores públicos e as escolas cívico-militares.
O candidato do PDT também trouxe para o debate assuntos que provavelmente não apareceriam em uma apresentação tradicional de propostas de governo. Um deles foi a não assinatura, pelo governo do Paraná, do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios. A questão apareceu justamente em meio às críticas de Sandro Alex ao que ele chamou de “ideologia” em determinados temas. Nesse ponto, Requião Filho procura inverter a lógica do argumento: se determinadas políticas são rejeitadas ou deixadas de lado por razões ideológicas, também é possível questionar quais são essas ideologias e quais consequências elas produzem na vida da população.
Também enfatizou sua candidatura desde o início do processo eleitoral, em contraposição à movimentação política de Rafael Greca, que inicialmente trabalhava em torno de uma candidatura própria ao governo do Paraná, acabou integrando a chapa de Sandro Alex. O acordo foi firmado entre o MDB, partido de Greca, e o PSD, partido do governador Ratinho Junior e de Sandro Alex. Greca chegou a apresentar um plano de governo durante sua pré-campanha e, posteriormente, abandonou a candidatura própria para integrar a chapa. A mudança ocorreu após uma visita de Ratinho Junior a Greca, quando o governador articulou a entrada do MDB na chapa de Sandro Alex.
Apesar dos dois candidatos falarem sobre educação, segurança e infraestrutura, a forma de apresentar esses temas é bastante diferente. Sandro Alex procura associar políticas públicas a resultados e à continuidade administrativa. Requião Filho procura associá-las à presença do Estado, aos trabalhadores e à prestação de serviços públicos. Essa diferença talvez seja uma das principais questões que o debate permitiu enxergar: não se trata apenas de dois candidatos apresentando propostas diferentes, mas de duas formas distintas de interpretar o papel do Estado.
Embora não tenha participado do debate, Sérgio Moro esteve presente no confronto justamente por sua ausência. A decisão de não comparecer não parece ter sido tratada como um simples imprevisto. O candidato publicou um vídeo produzido especificamente para comunicar sua ausência, com roteiro, iluminação e teleprompter. Sua equipe transformou a decisão em conteúdo para as redes sociais e, posteriormente, o assunto repercutiu na imprensa. O próprio Moro afirmou que não participaria por considerar o debate um “jogo combinado”.
Do ponto de vista da comunicação política, a estratégia é interessante. Moro não precisou dividir o palco com seus adversários, mas conseguiu ocupar parte do debate mesmo estando ausente. Seus apoiadores receberam uma justificativa diretamente pelas redes sociais, enquanto os demais candidatos acabaram falando sobre ele durante o programa.
É uma estratégia de comunicação integrada: redes sociais, assessoria de imprensa e repercussão espontânea trabalham em conjunto para transformar uma ausência em um acontecimento político. A lógica é conhecida: se o candidato não está no debate, não pode ser confrontado diretamente. Ao mesmo tempo, sua ausência pode gerar repercussão e manter seu nome em circulação. É uma estratégia que já apareceu em outros momentos da política brasileira, inclusive em campanhas de Jair Bolsonaro. No fim, Moro conseguiu uma coisa que talvez fosse justamente parte do objetivo: não esteve no palco, mas esteve no debate.
O primeiro debate ao governo do Paraná serviu, portanto, para muito mais do que colocar dois candidatos frente a frente. Sandro Alex apresentou-se como continuidade. Associou sua candidatura ao governo Ratinho Junior e a Rafael Greca, defendeu a presença do setor privado, a liberdade econômica e a manutenção das políticas que consideram resultados positivos da atual gestão. Sua comunicação foi marcada por frases de impacto, críticas diretas ao adversário e pela recuperação de uma narrativa anti esquerda já conhecida do eleitor brasileiro.
Requião Filho, por outro lado, construiu sua fala a partir da defesa dos serviços públicos, dos trabalhadores e de uma presença mais forte do Estado. Recuperou realizações dos governos de Roberto Requião, criticou privatizações e apresentou denúncias e questionamentos sobre obras, contratos e políticas do atual governo.
É claro que um debate não é suficiente para determinar qual projeto será melhor para o Paraná. Mas ele é suficiente para revelar como cada candidato pretende contar sua própria história e, principalmente, que história pretende contar sobre o estado. De um lado, a continuidade de um projeto que se apresenta como bem-sucedido e que tem em palavras como “coragem”, “resultado” e “liberdade econômica” alguns de seus principais elementos. Do outro, a tentativa de reconstruir uma narrativa em torno do serviço público, da valorização dos trabalhadores e da presença do Estado.
Mais do que discutir quem venceu o debate, talvez seja necessário observar qual narrativa conseguiu explicar melhor o Paraná que existe hoje e qual Paraná cada candidato pretende construir daqui para frente.
*Danielle Freitas é publicitária e comunicadora popular
