O caso de Maurício Thadeus de Mello e Silva (Requião Filho) e de Sérgio Fernando Moro: Um processo emaranhado em um contínuo histórico

Por Thaís Ribeiro Pinheiro* – Nas eleições de 2026, a vitória em primeiro turno do candidato Sérgio Moro, pelo Partido Liberal (PL), não surpreendeu. Inspirado na operação italiana Mãos Limpas, o ex-juiz consagrou-se nacionalmente ao conduzir grande parte das investigações da Operação Lava Jato — que levaram à condenação (posteriormente anulada) do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A partir desse protagonismo, Moro consolidou-se como figura central da oposição ao governo petista e chegou a ocupar o cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública no governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.

Em 2020, contudo, ao romper com o governo do qual fazia parte, o atual governador eleito do Paraná fez graves acusações a Bolsonaro, imputando-lhe a prática de crime de prevaricação. A denúncia fundamentava-se em uma suposta interferência política na Polícia Federal — órgão do Poder Executivo encarregado de investigações —, o que caracterizaria um desvio de finalidade. Na ocasião, Moro declarou: “Não tinha como aceitar essa substituição. (…) Tenho que preservar o compromisso que assumi, com o próprio presidente, de que seríamos firmes no combate à corrupção.”

Ressalto esse episódio porque as incoerências parecem ter sido assimiladas ou esquecidas pelo eleitorado paranaense. Moro filiou-se justamente ao PL, legenda pela qual concorre à Presidência o filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro. Em tom conciliador com o antigo e surpreendentemente atual aliado, o senador e agora governador eleito afirmou recentemente que “os recados que a campanha do Flávio tem dado são as mensagens verdadeiras do sofrimento do povo e as soluções que ele está propondo para o nosso país”. Dessa forma, mesmo com um discurso por vezes incoerente, Moro venceu a disputa estadual no primeiro turno com 50,10% dos votos válidos.

Para compreender as dinâmicas de poder que sustentam esses arranjos, evoco a figura de Requião Filho (PDT), que obteve 23,5% dos votos para o governo do Estado, ficando atrás de Sandro Alex (PSD), com 25,4%. Ao investigar a história política do Paraná, deparei-me com uma figura que despertou imediatamente as problemáticas do presentes ilustradas pelo passado: Justiniano de Mello e Silva, pernambucano, radicado no Paraná na segunda metade do século XIX, Justiniano destacou-se no jornalismo, na poesia e na política local durante a transição para a Primeira República (1889-1930). Secretário da Presidência do Estado na gestão de Lamenha Lins (1876), fundou periódicos relevantes, como o 25 de Março, Órgão do Partido Conservador e o O Sete de Março. Essa figura histórica é bisavô de Roberto Requião (ex-governador do Paraná) e tataravô de Requião Filho.

Embora tenha mantido laços com o Partido Conservador em parte de sua trajetória, Justiniano acabou marginalizado pelas elites políticas estaduais. Não por ser um revolucionário radical, mas por defender a causa operária e combater os excessos oligárquicos da época. Como aponta a historiadora Amélia Siegel Corrêa (2009), sua combatividade resultou em “[…] posições de baixa concentração nas fechadas estruturas locais” (p. 122). Tanto que, ao deixar o estado, “todos os relatos que partiram da intelectualidade local frisavam o quanto Justiniano de Mello se sentia desgostoso e frustrado com a trajetória no estado” (p. 123).

Passado mais de um século, percebe-se que essa estrutura tradicional de poder soube se reinventar e se preservar — ainda que por novas vias —, como evidencia o resultado das eleições de 2026. A exemplo de seu tataravô, Requião Filho não propunha uma revolução estrutural, mas apresentava uma plataforma progressista voltada à proteção social. Em sua proposta de governo, destacava: “O Paraná precisa voltar a ter um governo que cuide das pessoas. Um governo que resgate políticas públicas que deram dignidade à população e que tenha coragem de criar novas soluções para os desafios de hoje.”

Assim, alinhado à esquerda do espectro político, o herdeiro dessa tradição familiar viu-se vencido por um projeto político identificado com os interesses das elites econômicas e conservadoras do estado. Ao fim do pleito, a esquerda paranaense que insiste na resistência termina a eleição — tal como se sentia Justiniano ao deixar o Paraná — “desgostosa e frustrada com a trajetória do estado”, mas sem renunciar à esperança nos próximos capítulos dessa história.

* Thaís Ribeiro Pinheiro, graduada em história pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), atualmente é mestranda em história pela Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO)

Referências:

https://www.migalhas.com.br/quentes/325430/moro-faz-graves-acusacoes-a-bolsonaro-ao-anunciar-saida-do-governo-assista

https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/10/amp/7516754-moro-defende-flavio-bolsonaro-em-evento-do-pl-em-brasilia.html

https://www.pt-pr.org.br/Noticia/71966/requiao-filho-oficializa-candidatura-ao-governo-do-parana-com-apoio-do-pt

 

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