‘Covidiotas’: o Brasil das ideias fixas

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Por Estevão de Rezende Martins *  – “Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.” – Nelson Rodrigues.

“Ideia fixa também é uma doença” – Sérgio Rodrigues (Folha de SP, 20.8.2020, p. A-18)

Mais de uma vez encontram-se textos circulando pelas redes que usam o termo “covidiotas”. Não são sempre contra tudo e todos, mas em geral prevalece nos textos a acusação de que a imensa maioria das pessoas são idiotas por que acreditariam que a pandemia é grave, séria e imensa. Acusam os prudentes de estarem aprisionados por uma “ideia” fixa”… Enquanto que tais acusadores continuariam achando que tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

Tais “covidiotas” entregar-se-iam impensadamente a um complô midiático de enganação universal, destinado a pintar em escuros tons a realidade que seria muito diferente.

O uso da palavra (covidiota) mostra o quanto se ignora o sentido etimológico do termo ‘idiota’… (ἰδιώτης: idiotes – na democracia ática, aquele que ficava fora do redemoinho político; com o tempo o termo ganhou laivo pejorativo, predominante até hoje, em praticamente todas as línguas).

Tais textos consideram que haveria idiotice em fixar-se muita gente na Covid-19, esquecendo que as causas de mortalidade são muitas e variadas, uma ladainha sem fim de sofrimento e dor, que faria da Covid-19 “fichinha”.

Como diz mais de um “bem-falante’ por aí, cheio de si e de empáfia – sem se envergonhar, vazio de sensibilidade e de empatia – “se tiver que morrer alguém, que morra e não me perturbe”.

Que as estatísticas de uma instituição de elevadíssimo prestígio como a Universidade Johns Hopkins (americana!) sejam postas em dúvida e atribuídas a sabe-se lá que conspiração imaginária, não parece incomodar os ignorantes de plantão. Note-se bem: nesses contextos o ‘falante’ é ignorante por decisão própria.

Como é possível pensar que se afirme haver fixação patológica em pandemia imaginária, quando um país de 211 milhões de habitantes (IBGE) já chegou a 53 mortes/Codiv-19 por 100.000: o mesmo índice que os Estados Unidos, tão idolatrados pelo governo federal atual! Será ainda assim, que o “que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” (Juracy Magalhães)? Do jeito destrambelhado que vai, já já o Brasil ultrapassa seu ‘ídolo’, na pior das competições possíveis.

Se ainda fosse para disputar prêmios Nobel ou registrar patentes … mas não, é a disputa das trevas e de seus bruxos.

A pandemia não fez desaparecer o resto do país ou do mundo. Os problemas que existiam – continuam e em muitos aspectos se agravaram. Aqui e pelo mundo afora.

A bondade e a generosidade que existiam – continuam e em muitos aspectos floresceram e levaram a um magnífico contágio de solidariedade em correntes de apoio mútuo e alívio das circunstâncias penosas do distanciamento e do confinamento.

A economia, a política, a cultura, a família, a sociedade – enfim e indiscutivelmente – sofrem o impacto. Preservar empregos (criá-los está obviamente mais difícil) é importante, mas preservar vidas é ainda mais importante, pois de que adianta haver empregos se à volta se descortina um vasto cemitério?

Dar auxílio emergencial é obrigação moral, política e administrativa. Os governantes, nesse ponto, nada mais fazem do que sua obrigação. Isso coloca um curativo na ferida de hoje, mas o tratamento tem de restabelecer a saúde humana e a saúde econômica para amanhã, e no longo prazo.

Não se vive eternamente de migalhas. Vive-se de boa saúde, de boa educação, de boa formação profissional, de bom emprego, de boa renda, de boa esperança.

Há décadas que o brasileiro é movido a esperança, e o horizonte de superação de suas dificuldades parece teimosamente recuar sempre mais e mais.

Mas sendo antes de tudo um forte, o brasileiro sobrevive, bem ou mal, aos trancos e barrancos, à idiotice de muitos de seus compatriotas – o preço da diversidade por vezes é alto, o custo da tolerância pode ser doloroso, mas o combate é necessário, digno e honesto.

Não se pode perder o norte, desprezar o edifício social da democracia, construído a duras e longas penas, porque aqui e agora sopram ventos adversos e ouve-se inépcias em catadupa.

A idiotice contamina gravemente, na medida em que a credulidade etérea (acredita-se com imprudência e impudência no que circula nos meios virtuais, que já se chamou um dia éter…) escancara as portas às ideias fixas. Psiquiatras e psicanalistas devem estar a esfregar as mãos de contentamento profissional, ao constatar o tamanho do público para as patologias que tratam!

Não é só presente pandemia (infelizmente há imensas outras, tornadas banais e rotineiras, mas que dizimam pessoas a mãos-cheias!) que revela os rincões obscuros das almas mesquinhas: o caso da menina capixaba estuprada também trouxe à tona as mais abjetas reações! Não bastasse o estupro físico de vulnerável, lançaram-se mil e um palpiteiros a praticar o estupro moral da mesma menina, vociferando no espaço público – covardemente – contra a vítima, na lógica perversa de ver nela a portadora da culpa execrável. E pensar que tal violência contra vulneráveis atinge também meninos – mas meninos não engravidam! Meninos e meninas ficam, porém, marcados para a vida. E quem sabe o ficarão ainda mais quando vierem a saber o que delas e deles se disse!

Há muitos ditos que se poderia lembrar, mas cabe aqui mencionar aqui uma exortação do Dalai Lama: “Visto que nossa vida começa e termina com a necessidade de afeto e cuidados, não seria sensato praticarmos a compaixão e o amor ao próximo enquanto podemos?”

 

* Estevão de Rezende Martins, historiador, é professor emérito da Universidade de Brasília (Unb).

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