Ensaio sobre a cegueira

(por Ruth Bolognese)  –  Desde que me conheço por gente sempre quis ser jornalista e,  ao  informar a profissão, o fiz com a mesma arrogância da socialite Carmem Mayrink Veiga ao escrever “milionária” nas fichas de hotéis mundo afora. A Lava Jato me detonou.  Ao saber dos escabrosos esquemas dos políticos para roubar dinheiro na cara dura e deixar o guri sem escola, a vó sem remédios e o feto baleado dentro da barriga, fiquei com vergonha de mim. E de ser jornalista.

Passei 40 anos da minha vida convivendo com políticos, frequentando suas casas, andando nos seus Ômegas importados, admirando a elegância caríssima de suas mulheres. Trabalhei em campanhas eleitorais e recebi por isso.

E tal qual uma anta de quatro patas fechei os olhos para o mais óbvio: ora, mesmo somando todos os salários, gratificações etc, etc. de uma vida inteira, nenhum político conseguiria dar conta das despesas familiares, criar filhos estudando fora, comprar casas e apês, fazendas e jóias  e ainda arcar com as despesas estratosféricas de campanhas eleitorais.

É claro que havia a desconfiança sobre a origem do dinheiro, mas nunca me passou pela cabeça que fosse tanto e com todo mundo envolvido. É claro que, como assessora, eu sempre sabia a hora de  me retirar da sala quando a conversa resvalava para outro campo que não o profissional.

Mas cobro de mim o meu papel como jornalista, por não ter jogado cargos e empregos de lado e investigado, por conta, a roubalheira que estava na cara. Duas filhas pra criar e empresas de comunicação que só tinham interesse em investigar a superfície, aplacam a culpa.

Se fiz o mesmo jogo deles?  Certamente. Mas o meu padrão de vida até piorou se comparado com a casa que o pai construiu lá em Terra Boa, de onde saí para fazer jornalismo na Capital. É prova de idoneidade, mas não de responsabilidade profissional.

Por tudo isso, e até onde o  Contraponto me permitir, vou recuperando a integridade de ser jornalista. Aos 64 anos, com uma aposentadoria chinfrin e as duas crias encaminhadas, tenho muito pouco a perder.

Evoé casos escabrosos de políticos!

1 COMENTÁRIO

  1. Prezada Ruth, eu ia fazer uma manifestação a respeito deste seu desabafo no blog do nosso Zé Beto, mas o bandido nos deixou a pé nestes dias. Por isso, vai direto a você: além de lúcida e inteligente, você é, se me permite, de uma coragem dilacerante. O mea-culpa desta quinta, com incomum sinceridade, devia ser distribuído para todos aqueles que escrevem, jornalistas ou não. Nem todos, infelizmente, tem consciência, reconhecem o caminho caminhado, ainda que por necessidade, e são capazes de lamentar ou, ao menos, suspirar. Parabéns, menina. E continue em frente. De Paraíso do Norte ou de onde for. Um grande abraço.

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