Eleições de 2026: uma leitura possível da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva

Por Thaís Ribeiro Pinheiro* – O dia 25 de outubro de 2026 ficará marcado na história política brasileira. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República no segundo turno, depois de terminar a primeira etapa da disputa atrás de seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. No segundo, Lula alcançou 51,79%, contra 48,21% do candidato do PL. O resultado representa uma virada inédita na eleição presidencial brasileira desde a redemocratização: pela primeira vez, o candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno venceu a disputa no segundo. Lula exercerá seu quarto mandato presidencial, após os períodos de 2003 a 2006, 2007 a 2010 e 2023 a 2026; o novo mandato terá início em janeiro de 2027.

Na véspera da votação, o país foi palco de manifestações e atos de campanha de apoiadores dos dois candidatos. Em diferentes cidades, os grupos mobilizaram eleitores em torno de suas candidaturas, e a disputa ocupou as ruas até as últimas horas antes da votação. Em Fortaleza, por exemplo, houve mobilizações de apoio a Lula; em outras cidades, apoiadores de Flávio também realizaram atos. Esses registros mostram que a eleição não se limitou à disputa institucional entre candidatos: ela também foi marcada pela mobilização pública de setores da sociedade.

É nesse contexto que considero a reeleição de Lula um acontecimento politicamente significativo para aqueles que compreendem a democracia como expressão da vontade popular. Essa leitura não exige idealizar a figura do presidente nem supor que todos os seus eleitores compartilhem as mesmas convicções. A força mobilizadora de Lula é inegável, mas parte da adesão à sua candidatura também pode ser interpretada como oposição ao bolsonarismo e como preocupação com os rumos das instituições democráticas. Trata-se de uma interpretação política, não de uma motivação que possa ser atribuída indistintamente a todos os manifestantes.

No discurso da vitória, Lula agradeceu às pessoas que participaram da campanha e destacou, em especial, a presença de jovens e idosos nas mobilizações e na votação. Também agradeceu ao deputado André Janones, a quem chamou de “general”, e comparou a mobilização em defesa da democracia a um exército. Ao final, afirmou: “Eu duvido que a Rússia, que a China e que os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia desse país”.

A referência ao “Exército do Lula” remete à atuação de apoiadores na comunicação digital e na produção de materiais de campanha. O alcance digital ajuda a dimensionar a mobilização, tendo em vista que contou com mais de 10 milhões de apoiadores e sem dúvida foi imprescindível para a vitória do presidente.

Outro trecho do discurso oferece uma chave para interpretar a narrativa construída em torno da vitória. Lula afirmou: “Essas eleições foi a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem para os filhos de vocês que fez a gente virar”. A fala, registrada na íntegra pela imprensa, articula a vitória a valores que ultrapassam a identificação individual com o candidato: honradez, democracia e futuro. É por meio desses valores — e das disputas em torno de seus significados — que proponho compreender parte da mobilização eleitoral.

Flávio Bolsonaro, adversário de Lula e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, integra o campo político bolsonarista. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado e, em outubro de 2026, cumpria pena em prisão domiciliar. A proximidade política e umbilical entre os dois é relevante para compreender como a candidatura de Flávio foi interpretada por setores do eleitorado, embora a responsabilidade política de cada um deva ser examinada a partir de suas próprias ações e declarações.

Em 6 de outubro, durante um evento em Goiânia, Flávio Bolsonaro afirmou que pretendia usar a maioria de direita no Congresso para mudar a Constituição e “redemocratizar” o país. Na ocasião, não especificou quais mudanças constitucionais pretendia promover. No dia seguinte, esclareceu que se referia, entre outras propostas, a mudanças no Judiciário, à redução da maioridade penal e ao fim da reeleição. A grande questão que mora aqui é que por um lado Flávio teve o pai condenado por tentativa de golpe de estado e aparece em um discurso dizendo em mexer na constituição o que gera imediatamente um sinal de alerta nos eleitores que temem pela garantia de seus direitos.

Tendo em vista que a Constituição de 1988 não pode ser dissociada das mobilizações sociais que marcaram a redemocratização, como a campanha Diretas Já e as lutas sindicais do ABC paulista, nas quais Lula teve atuação destacada. Para muitos brasileiros, a Constituição representa não apenas um texto jurídico, mas também um marco de reconstrução democrática após duas décadas de ditadura civil-militar. É nesse sentido histórico e político que a proposta de alterar o texto constitucional, somada a outras declarações e posições do campo bolsonarista, pode ter despertado preocupação em parte do eleitorado. A crítica ganha força quando identifica as declarações concretas e explica por que elas são consideradas preocupantes, em vez de presumir que qualquer mudança constitucional equivaleria a uma ameaça democrática.

A memória da ditadura civil-militar brasileira (1964–1985) permanece presente na vida pública, inclusive por meio das histórias de pessoas presas, torturadas, mortas ou desaparecidas pelo regime e de suas famílias. Também houve, em manifestações de setores bolsonaristas, defesa de intervenção militar, discurso que remete a uma ruptura com a ordem democrática. Esses episódios precisam ser descritos com fontes específicas e sem generalizar suas posições para todos os eleitores de Flávio Bolsonaro. O ataque às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 constitui outro marco recente da crise democrática brasileira e ajuda a compreender por que discursos sobre intervenção militar ou ruptura institucional são recebidos com apreensão por parte da sociedade.

Não é possível afirmar, apenas com base nas declarações de campanha, que uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro instauraria uma ditadura. É possível, porém, analisar como a memória da ditadura, o ataque de 8 de janeiro e as falas de lideranças políticas contribuíram para formar o horizonte de preocupações de parte do eleitorado. O discurso de Lula também destacou que jovens e idosos foram às ruas e às urnas para defender a democracia. Isso não prova que todos tenham votado pelo mesmo motivo, mas permite reconhecer que a defesa democrática foi uma dimensão explicitamente mobilizada durante a campanha.

Após a divulgação do resultado, Flávio Bolsonaro questionou a legitimidade da eleição e afirmou que recorreria à Justiça para pedir sua anulação. A contestação teria base na discussão sobre a prorrogação do horário de votação. No dia 25 de outubro, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a votação fosse estendida até as 19h, após relatos de dificuldades no transporte de eleitores. A campanha de Flávio Bolsonaro também havia solicitado a ampliação do horário em determinados estados, alegando problemas causados por fortes chuvas. Antes da decisão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou à CNN Brasil que não via problema na prorrogação e que ela não alteraria o resultado. Assim, no discurso bolsonarista a expansão do horário só era válida em benefício próprio demonstrando mais um vez que o desrespeito as instituições democráticas é recorrente em seus discursos.

Concluo que a reeleição de Lula pode ser interpretada para além da vitória de um candidato ou de um partido. Ela ocorreu em meio a uma disputa intensa sobre os sentidos da democracia, da Constituição e da soberania nacional. Os resultados eleitorais comprovam a vitória nas urnas representa um momento de vitória da maioria das população que coloriu as ruas de vermelho. Para mim, essa dimensão torna a eleição mais do que um “tetra”: ela evidencia que a participação popular continua sendo decisiva na disputa pelos rumos do país. Os representantes eleitos devem respeitar as regras democráticas e a vontade expressa nas urnas, enquanto a sociedade mantém o direito de acompanhar, criticar e disputar os caminhos da política. Assim, este momento representa que o “povo unido jamais será vencido”.

*Thaís Ribeiro Pinheiro – Mestranda em História pela Unicentro e graduada em História pela UEPG.

Fontes para conferência

[1] Câmara dos Deputados, “Lula é reeleito presidente com quase 52% dos votos válidos no 2º turno”, 25 out. 2026. https://www.camara.leg.br/noticias/1313705-lula-e-reeleito-presidente-com-quase-52-dos-votos-validos-no-2o-turno

[2] Agência Brasil, “Em Brasília, atos por Lula e Flávio ficam a 2 km de distância”, 24 out. 2026. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/em-brasilia-atos-por-lula-e-flavio-ficam-2-km-de-distancia

[3] Folha de S.Paulo, “Leia a íntegra do discurso do presidente Lula”, 25 out. 2026. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/leia-a-integra-do-discurso-do-presidente-lula-reeleito-neste-domingo.shtml

[4] UOL, “Flávio Bolsonaro cita maioria no Congresso e fala em mudar a Constituição”, 6 out. 2026. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/06/flavio-bolsonaro-fala-em-mudar-a-constituicao-e-cita-congresso-de-direita.ghtm

[5] GZH, “Flávio afirma que fala sobre Constituição se refere a reforma no STF e fim da reeleição”, 7 out. 2026. https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/eleicoes/noticia/2026/10/flavio-afirma-que-fala-sobre-constituicao-se-refere-a-reforma-no-stf-e-fim-da-reeleicao-cmuy7og4s01010164p6gops8c.html

[6] A contestação do resultado deve ser acompanhada por reportagem contemporânea e por eventuais documentos ou decisões judiciais. A citação literal atribuída a Flávio no rascunho original foi retirada por não ter sido possível confirmar sua transcrição exata e o desfecho processual em fonte primária.

[7] CNN Brasil, “Tarcísio e Nunes dizem à CNN que concordam em prorrogar horário de votação”, 25 out. 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/tarcisio-e-nunes-dizem-a-cnn-que-concordam-em-prorrogar-horario-de-votacao/

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