(por Ruth Bolognese) – O juiz Sérgio Moro tem mais Ibope no Brasil de hoje do que linguiça de porco em Paraíso do Norte. Fora dos círculos vermelhos do petismo, quem ousa levantar um cisco de dúvida sobre suas decisões pode superar, fácil, a rejeição de Michel Temer. Para baixo.
Mas, como diz Guimaraes Rosa, “eu quase que nada não sei, mas desconfio de quase tudo,” entregar-se de corpo e alma ao trabalho do Juiz é um erro patriótico. Colocá-lo na redoma de infalível transforma o profissional corajoso e obstinado em mito e de mitos, minha gente, a história desse país está até aqui, ó.
Já passou da hora da crítica a Moro sair do palavreado “data vênia” dos juristas para se alojar na mesa do bar, com respingo de Brahma e gosto de fritas, passar pela barraca da Feira e entrar na academia de judô.
Ninguém precisa se preocupar: discordar das decisões de Moro não transforma o eleitor do filho do delegado Francischini em mortadela. Assim como, reconhecer o trabalho extraordinário do juiz maringaense não vai dar o contorno de coxinha em quem (ainda) pensa em votar no Requião. Também não precisa malhar o Moro para defender o Lula, porque isso o PT faz por conta e a cada 15 segundos.
Questionar Moro nos coloca numa democracia mais arretada, complexa sim, mas com um certo ar de independência e pensamento free. E nos mostra nas selfies como um povo que não precisa votar num Trump da vida para garantir a sobrevivência dos SUVs na garagem e guri de colo falando dois idiomas.
Século XXI na veia porque Moro não é primo do Frei Galvão e pode cometer erros como qualquer um. E duvide-o-dó que ele queira encarnar o Salvador da Pátria, Deus e o Diabo na Terra do Sol ou o jovem senador de Alagoas que tinha uma bala só engatilhada e se estrepou bonito.
Ter a chance de errar é muito mais confortável. Para nós, prô Moro e a pra torcida do Flamengo.
