Por Cláudio Henrique de Castro – Se Nelson Rodrigues estivesse hoje diante de sua Remington, a máquina não escreveria: ela daria coices.
Ele olharia para a nossa época e sentenciaria: “O crime perdeu a modéstia!”. Antigamente, o sujeito pecava e carregava o remorso como uma corcunda.
Hoje, não. O canalha atual pratica a corrupção com a alma de um bueiro aberto, mas — e aí está o detalhe — usando uma gravata de seda legítima ou um vestido de marca, para sermos inclusivos.
É o óbvio ululante: a corrupção virou o adultério da ética. E o povo?
O povo assiste a tudo com a passividade bovina de um corno conformado, que vê o amante saltar a janela e ainda lhe oferece um cafezinho.
O bandido moderno não teme a paróquia; ele caça o ângulo perfeito para o selfie.
É o triunfo do cinismo de vitrine.
Vejam esses saqueadores modernos: fazem os personagens de Nelson parecerem coroinhas de procissão!
O Palhares, que só queria a cunhada, morreria de tédio diante de festas de 300 milhões com trezentas modelos. É a festa da cueca elevada à categoria de epopeia nacional.
E os influenciadores? Substituíram os velhos jornalistas no ofício de fabricar mentiras em massa, todos com a mesma impunidade radiante.
E a delação premiada? É apenas a institucionalização do canalha honesto, o que confessa. O sujeito cospe o crime e sai de cabeça erguida, como se a canalhice assumida fosse uma virtude teologal.
No fim, sobra apenas a amoralidade nua e crua, sem o pudor de um lençol estendido.
Fechem-se as cortinas.
