O templo da democracia e seus vendilhões

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…Hoje, 6 de janeiro, é a Festa da Epifania. Neste dia de revelação, deixe-nos orar para que esta instigação à violência promova uma epifania para o nosso país se salvar. Com este espírito de salvação, eu invoco a Oração de São Francisco – eu usualmente faço isto – São Francisco é o santo padroeiro da minha cidade, São Francisco, e ele é – sua oração é nosso cântico de louvor: “Senhor, faça-me um instrumento de vossa paz. Onde houver escuridão, que eu leve a luz. Onde houver ódio, que eu leve amor. Onde houver desespero, que eu leve a esperança”…,, – Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, em 6.1.2021, à noite. (1)

Por Estevão de Rezende Martins* – 2021 começou com muitos choques e escândalos. Haja saúde para aguentar!

6 de janeiro: o Capitólio em Washington treme nas bases. O templo simbólico da mais antiga república democrática do Ocidente é enxovalhado pela turbamulta dos mentecaptos trumpistas. Aliás, há muitos deles aninhados no Partido Republicano, instrumentalizado vergonhosamente, no breve período de 4 anos, a ser plataforma de projeção personalista do presidente afinal derrotado em 3 de novembro de 2020. Os aproveitadores – que afinal não perderam assim tanto terreno nas eleições legislativas – já afiam os caninos para criar caso para o governo Biden.

Mas a democracia, se balançou, se rachou aqui e ali, não cedeu. Deve ainda pensar suas feridas. Afinal, como defender a tese de “América primeiro” (no que Democratas e Republicanos convergem), se o país voltou as costas para o mundo e dividiu-se em campos antagônicos? Consertar estragos toma tempo e usualmente sequer é reconhecido pela opinião pública. Agora é arrumar um jeito de escorraçar os vendilhões incrustados pelo país afora. Árdua tarefa.

1º de fevereiro: as duas casas do Congresso Nacional brasileiro dão um deprimente show pirotécnico da mais arcaica política, com beneficiários que nunca conheceram o peso de que o país se libertou em 1985. Em termos de articulação, é preciso, no entanto, engolir em seco e admitir: a velha política voltou com força e com eficiência. O falecido deputado Roberto Cardoso Alves (1927-1996; líder do primeiro “Centrão”, em 1988, que consagrou o bordão do fisiologismo político: “toma lá, dá cá”) deve estar orgulhoso de ver tantos discípulos, mais de trinta anos depois!

O mercadinho do varejo de vida curta funcionou a pleno vapor ao longo de janeiro, enterrando ainda mais na amnésia federal os mais de 255.000 mortos pela CoVid-19 (sem contar o que mais haja, de que quase ninguém fala), agravando o déficit das contas públicas. A esta altura, a projeção para este ano é que cada um dos habitantes no país deverá individualmente R$ 26.415,00 – do recém-nascido ao tataravô de 100 anos – só por causa da dívida pública consolidada da União. Sem pensar nas demais contas… Os vendilhões investiram novamente o templo, os biscateiros dão as cartas.

Sob regime parlamentarista de governo, não há governo sem maioria no parlamento. Nem há maioria no parlamento se a lei eleitoral não a torna possível. No Brasil, o presidencialismo de coalizão tornou-se uma piada desde 1º de janeiro de 2019. Se não se tem maioria no parlamento, não se pode hostilizá-lo, como o fez o atual presidente da República, achando-se ungido para além do bem e do mal.

O Brasil não é parlamentarista. Óbvio. Mas uma Câmara com 513 deputados distribuídos entre 24 partidos, não tem como formar maioria, se não for mediante troca de favores e obliteração da honra, da moral e dos bons costumes – ao menos pelo que se vê hoje. Poucos se salvam, e seu peso não altera o desequilíbrio político nem melhora a indigência ética. As bancadas maiores giram em torno de 10% da Casa (PT, PSL) e há partido com apenas 1 deputado (Rede)… Sem falar das migrações entre as siglas, ou mesmo da invenção de alguma nova, que ocorrem sem compromisso nem punição, sem sequer enrubescer os nômades da política – sem ideias nem retidão, vendem-se ou alugam-se ao que mais oferte.

No Senado, o cenário não é diferente. Somente numericamente menor. 81 senadores, dispersos por 16 partidos… Somente 2 bancadas têm entre 15% (PSD) e 19% da Casa (MDB). Também há partido de um senador só (PSC, PSB).

Pelo que se observa, as táticas de “cooptação política” (expressão pudica cunhada pelos politólogos, como “presidencialismo de coalizão”) voltaram a reduzir-se ao baixo troca-troca de favores nas sombras e pelos cantos, em que objetivos, programas e ações de longo prazo ficam à beira do caminho. O que adianta haver projetos altissonantes (reforma tributária, reforma administrativa, etc.) se cada artigo, parágrafo, inciso ou alínea teria ‘preço’ no varejo míope de uma coorte díspar de indivíduos diminutos, de interesses mesquinhos, de estratégias setoriais, para a qual o país é um imenso balcão de autoatendimento em benefício próprio. O resto é conversa – inclusive e quem sabe sobretudo quando das eleições.

Assim, se o governo joga a tarrafa do dinheiro público, arrebanha da sardinha ao tubarão. Teimosa e lamentavelmente essa prática resiste. Não há maioria para mudar as regras – nem se vislumbra alteração no cenário, já contaminado com a peleja de 2022, empurrando para os porões da desgraça o presente confuso e doloroso.

Hoje, os vendilhões ganharam um round. Amanhã, devem (moral e efetivamente) perder a luta. Há esperança. Cultivemo-la.

Não fosse a inoxidável capacidade de o brasileiro superar adversidades, o desalento nos haveria submergido. Mas não: somos teimosamente capazes de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Nem os piores augúrios das vivandeiras conseguem fissurar nossa blindagem. Essa nota otimista pode parecer alienada a alguns. Que seja. Mas quem se debruça, nem que seja por fugidio instante, sobre a história do Brasil, há de convir que, ao fim e ao cabo, uma boa pitada de otimismo tem seu lugar. Por entre trevas acaba por brilhar a luz.

Bem. Mas há de se reconhecer que, como o amor para Vinicius de Moraes, eterno enquanto dura, a treva parece durar eternamente enquanto nos envolve. O tempo parece parar, quando não regredir. No entanto, é para a frente que se anda – já se dera conta Ary Barroso nos anos 1950, de certo modo a convidar-nos a seguir adiante.

* Estevão de Rezende Martins *, historiador, é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

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Citação original em inglês:

(1)„… Today, January 6, is the Feast of the Epiphany.  On this day of revelation, let us pray that this instigation to violence will provide an epiphany for our country to heal. In that spirit of healing, I invoke the Song of St. Francis – I usually do – St. Francis is the patron saint of my city of San Francisco and he is – his song is our anthem: ‘Lord, make me a channel of thypeace.  Where there is darkness, let me bring light. Where there is hatred, let me bring love.  Where there is despair, let me bring hope.’ … „ – Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, em 6.1.2021, à noite. (1)

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