O coveiro da esperança. “Sucesso” internacional do Brasil: de pária a ameaça global.

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“Brasil, condenado à esperança.” – Millôr Fernandes

Por Estevão de Rezende Martins* – País do futuro. Brasileiro, profissão esperança. Dias melhores ficam aparentemente sempre para amanhã.

Saturação política acumulada, a minar bom senso e a turvar capacidade de julgar criticamente. Estávamos às vésperas das eleições de 2018. Um lúgubre baile de egocêntricos sapateia nas ruas e festeja o surgimento de um candidato “contra a velha política” e “portador de um projeto nacional confiável”. Esses culpados intencionais – militares nostálgicos, empresários oportunistas como de costume, políticos do mais profundo porão, pretensos religiosos e uma incontável malta de pessoas, cujo obscurantismo impressiona e teima a persistir ainda em 2021, cometeram um arrastão eleitoral e guindaram à presidência de República um indivíduo indiscutivelmente despreparado, para dizer o mínimo.

Entristece qualquer um do povo, ver o quanto a estupidez de tantos seguidores do dito indivíduo os fez empacar em atitude retrógrada, hostil, impaciente, intolerante, segregacionista, entregues irrefletidamente a mitos e mentiras, a falcatruas e trapalhadas. Desola ver como progride a passos largos o ignominioso desrespeito com que tratam as instituições republicanas e a maioria dos cidadãos. Sim, pois os cidadãos com descortino constatam estupefatos que o Brasil está abandonado à mais obscura sandice.

O presidente da República, que afirmou não ser coveiro, demonstra sobejamente ter uma irresistível vocação para a morte: um coveiro insensível, cruel, que se compraz em rir-se da desgraça que se abate sobre o país, que fomenta o uso de armas – como se a criminalidade existente já não bastasse. A esperança que nos distingue recebe a cada dia mais uma pá de terra lançada pelo chefe do Executivo, que pensa assim mascarar mortos e calar vivos.

Quem ainda acredita que a economia sirva de pretexto para fazer como se nada ocorresse e que as “baixas” são perdas colaterais desprezíveis? Recuo do PIB: -4,1%. Não adiante empurrar a culpa para o resto do mundo: todos sofrem. Pelo mundo afora, na média, a PIB mundial pelo menos não mergulhou de cabeça, devendo ficar em torno de +0,3% entre 2020 e 2021 (FMI). O Brasil soçobra em queda livre, agora o “pária internacional” pode “orgulhar-se” do tombo para a 12ª. economia do mundo, com viés de queda!

O diretor-geral da OMS, após longo e diplomático vai-e-vem quanto ao Brasil, afinal não teve mais como segurar-se: em 5.3.2021 falou publicamente fustigando a omissão de medidas sérias por parte de Brasília – doutra forma, o Brasil torna-se vetor mundial de contágio. De “bem-sucedido pária” (expressão do ministro das Relações Exteriores, uma fonte inesgotável de vexames), o país passa a ser considerado ameaça global, cujo governo projeta maléfica sombra, para começar, sobre seus vizinhos.

De que adiante brincar com as estatísticas, dizendo que em outros lugares há mais doentes ou mortos por mil, cem mil ou milhão do que no Brasil? Será que se busca uma versão aventureira de um 007 de Pindorama, licença para matar até que a estatística equipare o Brasil ao pior dos infernos do planeta ou mesmo o faça passar à frente? Por que o ridículo jogo de cena de um passeio inútil, ridículo e humilhante, às custas do contribuinte, até Israel? Qual a qualificação médica do grupo? O que fez no grupo um inexpressivo, mas truculento deputado do PSL/RJ, além de um outro, presidente [ainda] da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados? O grupo sequer foi autorizado a deixar o hotel… com exceção de uma única cerimônia formal.

A saúde dos brasileiros não é um videogame, em que os caídos são apenas virtuais: mais de 11 milhões de infectados. O terceiro mais sofrido no mundo (1º.: EEUU; 2º.: Índia). Aí há quem logo brada: há mais de 9.700.000 curados. Ótimo. Não faz mais do que a obrigação. E ainda subsiste fundada dúvida de que tenha sido por qualquer mérito do Planalto. Os 266.000 mortos põem o Brasil na segunda posição nessa mórbida corrida!

O emprego dos brasileiros não é mero jogo de retórica. Perto de 17% no primeiro semestre de 2021: cerca de 14 milhões de pessoas. 39,1% da atividade econômica é informal. Mortos não procuram emprego e suas famílias devastadas, fragilizadas, tornam-se ainda mais vulneráveis aos efeitos colaterais da pandemia: todas as demais mazelas não desapareceram, espreitam o país, galopante campeão de desigualdades e assimetrias (vejam só: há quem compre mansão de 6 milhões de reais como se fosse média com pão e manteiga, na padaria da esquina? – já é de se perguntar se o Ali Babá instalado na república não está coletando muito mais do que 40 asseclas, família incluída).

A inflação não é jogo de cena. Projeção de pelo menos 7% para 2021. A dívida pública não é brincadeirinha do jogo de Monopólio. Dispara. Não há teto de gastos ou responsabilidade fiscal que escape a manobras evasivas que empurram para depois o descomunal vórtice que sorve nosso pobre dinheirinho. Tudo acaba mais caro: o comer, o vestir-se, o deslocar-se, o trabalhar, o aprender – enfim, o viver. Na corda bamba que balança perigosamente, milhões sobem e descem entre miséria e pobreza. A pandemia da penúria devasta ainda mais o esgarçado tecido social do país.

As elites políticas disputam interminavelmente entre si políticas de esmolas (os nomes estrepitantes dos “programas sociais” somente enganam os trouxas), de olho nas próximas eleições.

O vaso de maldades já transbordou há muito. As manobras congressuais de 2021 revelam um jogo (arriscado e perigoso) de aumentar o controle presidencial que não funcionou bem em 2019-2020 (malgrado a leniência de ambas as Casas), de modo a surfar num mar de impunidades recíprocas.

Diante do tamanho do trauma político, econômico, social e cultural que se avoluma a cada dia (e da omissão consciente e dolosa de muitos habitantes e frequentadores da caverna desse doidivanas), o trauma de um terceiro impedimento em 30 anos de república recente mais aparece como fichinha do que como problema. A questão principal que remanesce é saber: quem colocará o guizo no rabo do gato?

 

*Estevão de Rezende Martins, historiador, é professor emérito a Universidade de Brasília (UnB).

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