Museu do Holocausto de Curitiba lança material educativo sobre os 90 anos das olimpíadas de Berlim

O Museu do Holocausto de Curitiba lançou, na semana passada, o material educativo “A Chama e a Sombra: os 90 anos das Olimpíadas de Berlim”, resultado de um trabalho de pesquisa que reúne documentos, peças de acervo, fotografias, propostas pedagógicas e, sobretudo, trajetórias individuais que ficaram à margem da narrativa oficial dos Jogos Olímpicos de 1936.

Com cerca de 50 páginas, o material está dividido em capítulos, que mostram como o esporte era parte importante da vida das comunidades judaicas na Europa entre as duas guerras mundiais, como o nazismo se apropriou do esporte para consolidar o mito da superioridade ariana, quais foram as repercussões das Olimpíadas de Berlim na imprensa internacional — incluindo a brasileira —, e como se deram os movimentos de boicote à competição. O conteúdo traz, ainda, propostas pedagógicas para trabalhar o tema em sala de aula e apresenta peças do acervo do Museu relacionadas aos Jogos de 1936.

As Olimpíadas de Berlim

Realizadas em pleno regime nazista, as Olimpíadas de Berlim ficaram marcadas pelas cerimônias e pelos recordes esportivos exaltados pela propaganda da época. Passados 90 anos, o material do Museu propõe um outro olhar sobre o evento, voltado para quem, por trás dos holofotes, teve a vida marcada pela discriminação, exclusão e violência do regime, mas também pela resistência e pelo combate à perseguição nazista.

O coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, destaca que o esporte e as Olimpíadas nunca estiveram dissociados da política. Desde sua criação, os Jogos refletem tensões nacionais, disputas de poder, exclusão, desigualdades sociais e raciais. Em 1936, esse vínculo ficou ainda mais evidente.

“Naquele ano, os primeiros campos de concentração, como Dachau e Sachsenhausen, já confinavam prisioneiros políticos. As Leis de Nuremberg, que institucionalizavam o antissemitismo, já estavam em vigor. Enquanto isso, mais de 300 estações de rádio transmitiam as competições em mais de 25 idiomas, projetando a imagem cuidadosamente construída de uma Alemanha moderna, organizada e pacífica”, afirma Reiss.

Para o coordenador de História do Museu do Holocausto, Michel Ehrlich, o material busca justamente contrapor a imagem das Olimpíadas construída pela propaganda nazista. “Ao longo da história, o esporte e as grandes competições foram usados tanto para sustentar regimes quanto para resistir a eles, e com o nazismo não foi diferente. Queríamos trazer uma pluralidade de histórias que ilustrassem diferentes trajetórias ligadas aos Jogos de 1936 e ao esporte em geral: atletas impedidos de competir, que se posicionaram publicamente, que encontraram formas de resistir ou que sabotaram os eventos.”

A Chama e a Sombra

Uma das passagens mais lembradas das Olimpíadas de Berlim é a do atleta negro norte-americano Jesse Owens, um dos maiores nomes da história do atletismo. Nascido em 1913, destacou-se ainda jovem nas provas de velocidade e salto em distância, construindo uma carreira marcada por recordes mundiais. Nos Jogos de 1936, conquistou quatro medalhas de ouro, feito que desafiou diretamente a propaganda nazista de superioridade racial ariana e o transformou em símbolo da luta contra o racismo.

Ao retornar aos Estados Unidos, seguiu enfrentando discriminação racial. Sem contratos ou emprego, foi atração de circo e correu contra motos, carros e cavalos para sustentar a família. Só nos anos 1950 ganhou reconhecimento mais amplo. Morreu em 1980.

O material também reúne histórias menos conhecidas, como a de Johann Trollmann, o “Rukeli”, nascido em 1907 em uma família cigana Sinti, na Alemanha. Ele se destacou no boxe alemão com uma movimentação ágil e constante, descrita como uma dança no ringue, e por isso criticado pelo regime por não ser “germânico” o suficiente. Barrado das Olimpíadas de Amsterdã, em 1928, seguiu lutando e acumulou vitórias, incluindo o título nacional dos meio-pesados, de 1933, anulado pelos nazistas.

Forçado a uma nova luta sem poder usar seu estilo, subiu ao ringue, em protesto, com o cabelo tingido de loiro e o rosto coberto de farinha, permanecendo imóvel até ser nocauteado. Depois desse episódio, a perseguição se intensificou. Em 1942, foi preso, torturado, deportado e assassinado dois anos depois. Por décadas, sua história permaneceu encoberta. Seu título de 1933 só foi reconhecido 70 anos depois, em 2003.

Outra trajetória, que tem relação com o Brasil, é a de Béla Guttmann, nascido em Budapeste em 1899, um dos maiores treinadores de futebol do século XX. Durante o Holocausto, escondeu-se em um sótão e depois escapou de um campo de trabalhos forçados, sobrevivendo até o fim da guerra. Foi jogador de futebol e competiu nas Olimpíadas de Paris, em 1924, mas foi como técnico que se consagrou. Ele ajudou a popularizar o esquema tático 4-2-4 e, em 1957, treinou o São Paulo, deixando um legado que influenciou a seleção brasileira campeã do mundo em 1958. Guttmann também conquistou duas Copas dos Campeões Europeus seguidas pelo Benfica, de Portugal, em 1961 e 1962. Morreu em Viena, em 1981.

Propostas pedagógicas

Além de reconstituir cronologicamente o evento esportivo, o material reflete sobre como o esporte pode ser instrumentalizado para legitimar projetos autoritários, ocultar violações de direitos e difundir narrativas de intolerância. Alinhado à missão do Museu do Holocausto de promover educação em direitos humanos e combate à intolerância, o material é indicado para uso em sala de aula, formação de professores e projetos de memória histórica.

“Desenvolvemos os roteiros para diferentes etapas de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Médio, sempre pensando em opções específicas para cada ano. Mas é importante ressaltar que as atividades podem e devem ser adaptadas à realidade de cada escola”, afirma Denise Weishof, coordenadora do Departamento Pedagógico da instituição.

Os outros materiais educativos desenvolvidos pelo Museu podem ser acessados no site da instituição.

Materiais Educativos

(Na foto, o alemão Fritz Schilgen rumo ao acendimento da pira dos Jogos Olímpicos em Berlim.  Berlim, Alemanha, agosto de 1936. Crédito: Domínio Público).

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