O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ultrapassou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do primeiro turno, venceu a votação de 4 de outubro e chega a poucos dias do segundo turno da eleição ainda à frente do presidente. Mas a vantagem é pequena. Na primeira pesquisa Indexa/Broadcast para o segundo turno, divulgada nesta quinta-feira (15), o candidato do PL aparece com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. A diferença está dentro da margem de erro.
No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. Foram aproximadamente 2,22 milhões de votos de vantagem. Agora, a distância entre os dois é de dois pontos percentuais, praticamente a mesma registrada nas urnas.
Na pesquisa estimulada, que considera todos os entrevistados, Flávio tem 44% das intenções de voto e Lula, 42%. Outros 8% afirmam que não irão votar, 4% declaram voto branco ou nulo e 2% estão indecisos ou não souberam responder.
O problema para os dois candidatos é que o espaço para conquistar novos eleitores parece cada vez menor. Segundo a pesquisa, 87% dos brasileiros afirmam que já decidiram definitivamente seu voto. Apenas 11% admitem mudar de candidato.
“A diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula permanece muito estreita, dentro da margem de erro da pesquisa. A disputa agora será pela conquista dos eleitores que não se identificam plenamente com nenhum dos dois candidatos e que podem ser decisivos para o resultado da eleição”, afirma Arilton Freres, sociólogo e CEO da Indexa Pesquisas.
É nesse cenário de disputa apertada que os dois candidatos tentam encontrar assuntos capazes de conquistar votos fora de suas bases tradicionais.
A aprovação no Senado, na quarta-feira (14), da proposta de emenda à Constituição que põe fim à escala de trabalho 6×1 pode entrar nessa disputa. Lula tem a oportunidade de associar a medida, um projeto de autoria do governo federal, à defesa dos direitos dos trabalhadores. Flávio, que anteriormente havia se manifestado contra a proposta, tenta demonstrar que ela também encontra apoio entre os políticos de direita.
Para Arilton, a questão é saber como o eleitorado interpretará o posicionamento dos dois candidatos, especialmente entre aqueles que ainda admitem mudar de voto.
Uma proposta que pode custar votos a Flávio
A intenção de Flávio Bolsonaro de promover mudanças na Constituição, caso seja eleito presidente, encontra um eleitorado dividido entre o apoio, a resistência e a indiferença.
Para a maioria dos entrevistados, 54%, a proposta não muda a disposição de votar no candidato. Mas há um dado que merece atenção: 20% afirmam que a declaração diminui sua disposição de apoiá-lo, enquanto 16% dizem que ela aumenta.
A resistência é particularmente significativa entre as mulheres. Nesse grupo, 26,8% afirmam que a proposta diminui muito a possibilidade de votar em Flávio, contra 16,9% dos homens.
Entre os eleitores que se identificam como bolsonaristas, o efeito é diferente. Para 31,5%, a intenção de mudar a Constituição aumenta muito a disposição de votar no candidato.
A proposta, portanto, reforça o apoio de parte dos eleitores que já estão próximos de Flávio, mas pode dificultar sua aproximação com aqueles que ainda resistem à candidatura.
“A proposta de mudanças na Constituição defendida por Flávio mobiliza parte da base bolsonarista, mas também desperta resistências, o que, numa disputa acirrada, pode atrapalhar o candidato do PL na busca dos votos dos indecisos. A campanha precisará explicar quais mudanças pretende realizar e como elas afetariam a vida dos brasileiros”, avalia Arilton.
Quase ninguém quer mudar de lado
A consolidação das intenções de voto é um dos resultados mais expressivos da pesquisa. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 91% afirmam que sua escolha é definitiva. O mesmo percentual aparece entre os que pretendem votar em Lula.
Nos dois grupos, apenas 8% admitem mudar de candidato.
Isso significa que a disputa não depende apenas da capacidade de conquistar novos eleitores. Também será importante garantir que aqueles que já escolheram um candidato compareçam às urnas no segundo turno.
A convicção é maior entre os entrevistados com renda familiar superior a cinco salários mínimos: 90,1% afirmam que seu voto está definido.
Já entre aqueles que não votaram ou escolheram branco ou nulo no segundo turno de 2022, a certeza é menor. Nesse grupo, 66,5% consideram sua escolha definitiva.
É uma diferença que ajuda a identificar onde ainda pode existir espaço para movimentação eleitoral.
Metade do país rejeita Lula. A outra metade rejeita Flávio
A disputa presidencial tem outro obstáculo: a rejeição.
Segundo a Indexa/Broadcast, 51% dos entrevistados afirmam que jamais votariam em Flávio Bolsonaro. No caso de Lula, são 50%.
Os dois também possuem bases de apoio bastante consolidadas. Flávio tem 41% de eleitores que dizem votar nele com certeza, enquanto Lula registra 40%.
A diferença aparece entre aqueles que ainda consideram a possibilidade de votar em um dos candidatos. Lula tem 9% de eleitores nessa condição. Flávio, 6%.
Os números revelam uma dificuldade semelhante para os dois lados: conquistar novos votos significa, muitas vezes, convencer pessoas que já manifestaram resistência à candidatura.
Essa rejeição não se distribui igualmente pela população.
Entre os jovens de 16 a 24 anos, 62% afirmam que jamais votariam em Flávio. Entre as mulheres, a rejeição ao candidato do PL chega a 55,3%.
Lula enfrenta dificuldades particularmente grandes entre os evangélicos, grupo no qual sua rejeição alcança 82,8%. Entre os entrevistados com renda familiar superior a cinco salários mínimos, 55,7% dizem que jamais votariam no presidente.
“Tanto Lula quanto Flávio precisam conquistar eleitores que hoje resistem às suas candidaturas. A eleição pode ser decidida menos pelo entusiasmo de novos apoiadores e mais pela capacidade de reduzir resistências”, avalia Arilton.
Uma eleição movida pelo medo
A polarização também aparece quando a pesquisa pergunta aos brasileiros o que mais temem no atual cenário político.
O resultado é um empate exato: 41% dizem temer a volta da família Bolsonaro ao poder. Outros 41% afirmam que seu maior medo é mais um mandato de Lula.
Há ainda 7% que temem os dois cenários e 10% que não têm medo de nenhum deles.
As diferenças aparecem quando os números são separados por gênero, idade e religião.
Entre as mulheres, 45,2% temem a volta dos Bolsonaro, contra 37,2% que receiam outro mandato de Lula. Entre os homens, a situação se inverte: 44,6% temem a continuidade do presidente, enquanto 36,2% apontam a volta da família Bolsonaro.
Os jovens apresentam uma diferença ainda maior. Na faixa de 16 a 24 anos, 56,3% temem o retorno dos Bolsonaro ao poder. Apenas 26,6% apontam mais um mandato de Lula como seu maior receio.
A religião também divide as percepções. Entre os evangélicos, 69% temem outro mandato de Lula. Entre os católicos, 52,1% receiam a volta dos Bolsonaro.
Os números mostram que a eleição é marcada não apenas pelo apoio aos candidatos, mas também pelo receio de uma vitória adversária.
Redes sociais lideram, mas debates ainda importam
A televisão continua tendo espaço na disputa eleitoral, mesmo com o crescimento das redes sociais.
Para 55% dos entrevistados, a participação dos candidatos nos debates televisivos é muito importante. Outros 10% consideram pouco importante, enquanto 33% dizem que não tem importância.
O interesse é maior entre os eleitores identificados com a esquerda. Entre lulistas e petistas, 74,4% consideram os debates muito importantes. Entre os eleitores de esquerda não lulistas, o índice é de 73,8%.
Entre os bolsonaristas, apenas 38,7% atribuem grande importância aos debates.
Quando a pergunta é sobre o meio de comunicação que mais contribuiu para a decisão de voto no primeiro turno, as redes sociais aparecem na liderança, com 23%.
A televisão vem em seguida, com 14%. Portais de notícias e jornais são citados por 10%, enquanto 8% apontam conversas com familiares, amigos ou colegas de trabalho.
Outros 28% afirmam que nenhum dos meios apresentados contribuiu para sua escolha.
Os dados indicam que, embora as redes sociais ocupem posição importante na comunicação eleitoral, a decisão do voto continua passando por diferentes ambientes.
O peso do governo na campanha de Lula
Além de enfrentar Flávio Bolsonaro, Lula precisa lidar com a avaliação de seu próprio governo.
A pesquisa mostra que 50% dos entrevistados desaprovam a maneira como o presidente administra o país, enquanto 45% aprovam.
Quando a avaliação é feita em conceitos, 45% classificam o governo como ruim ou péssimo. Outros 33% consideram a gestão ótima ou boa, e 21% avaliam como regular.
Mas o dado mais difícil para a campanha de reeleição aparece em outra pergunta: Lula merece permanecer por mais quatro anos na Presidência?
Para 54% dos entrevistados, a resposta é não. Outros 39% acreditam que ele merece continuar no cargo.
A desaprovação é particularmente elevada entre os evangélicos, chegando a 77,9%, e entre os eleitores com renda superior a cinco salários mínimos, com 58,1%.
O Nordeste continua sendo a região mais favorável ao presidente. Ali, 52% aprovam sua administração, contra 41,6% que desaprovam. No Centro-Oeste, a desaprovação chega a 63,9%.
Na comparação com a pesquisa anterior, os números apresentam pequenas oscilações, todas dentro da margem de erro. A desaprovação passou de 51% para 50%, enquanto a aprovação recuou de 46% para 45%.
“A avaliação do governo é um obstáculo importante para Lula. Mais da metade dos entrevistados considera que ele não merece outro mandato, um percentual superior à rejeição eleitoral direta ao presidente. Isso indica que Lula precisa não apenas conquistar votos, mas reconstruir a percepção sobre sua capacidade de governar por mais quatro anos a poucos dias da eleição”, afirma Arilton Freres.
A disputa pelos votos que restam
A pesquisa desenha uma eleição na qual os dois candidatos possuem bases sólidas, rejeições elevadas e pouco espaço para crescimento.
Flávio Bolsonaro mantém a vantagem obtida no primeiro turno, mas não conseguiu abrir uma distância confortável sobre Lula. O presidente, por sua vez, precisa superar a avaliação negativa do governo e conquistar parte de um eleitorado que demonstra resistência à sua continuidade.
Com 87% dos brasileiros afirmando que já decidiram seu voto, o segundo turno será disputado em um espaço cada vez mais estreito.
A questão que permanece é qual dos dois candidatos conseguirá convencer os eleitores que ainda não fizeram uma escolha definitiva e, sobretudo, levar seus apoiadores às urnas.
A pesquisa nacional Indexa/Broadcast foi realizada nos dias 13 e 14 de outubro de 2026, com 2.000 eleitores de todas as regiões do país. O levantamento utilizou entrevistas individuais por telefone (CATI). A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04629/2026 e foi realizada pela Indexa Pesquisas em parceria com a Broadcast, serviço de notícias do Estadão.
