Escala 6×1: Entre os discursos e as evidências empíricas

Por Thais Ribeiro Pinheiro* – Na última quarta-feira, 14 de outubro, o Senado Federal aprovou por 75 votos a favor e apenas um contrário, em dois turnos de votação, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6X1. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) foi o único a votar contra a proposta.

Segundo reportagem de Isabela Ortiz, Rafaela Zem e Rayane Moura (G1), as mudanças serão empreendidas gradualmente:

  1. *Primeira fase (60 dias após a promulgação):* O limite semanal cairá de 44 para 42 horas, garantindo aos trabalhadores e trabalhadoras o direito a dois dias de descanso remunerado por semana, preferencialmente aos domingos.
  2. *Fase intermediária (12 meses seguintes):* Convenções e acordos coletivos poderão estabelecer uma jornada diária superior a oito horas para organizar a escala de 42 horas semanais, desde que mantidos os dois dias de descanso.
  3. *Fase final (14 meses após a promulgação):* A jornada máxima será reduzida definitivamente para 40 horas semanais, sem redução salarial.

A aprovação desta PEC — que vinha sendo rechaçada por setores contrários e acusada de possuir caráter eleitoreiro — produzirá mudanças significativas na vida de milhares de trabalhadores e trabalhadoras do país. Trata-se de uma demanda genuína que nasce da vida material e do sofrimento psíquico. A mobilização ganhou força a partir do desabafo do vereador Rick Azevedo (PSOL-SP), que expôs a rotina exaustiva vivida por dez anos como balconista de farmácia.

Dessa forma, a pauta toca no coração de milhares de pessoas que vivem essa mesma realidade ou têm familiares vitimados por uma escala que esvazia a vida em prol do trabalho, gerando uma “sociedade do cansaço”, exausta e mentalmente adoecida. A demanda chegou ao Congresso Nacional por meio de iniciativas como a PEC 221/2019, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), posteriormente incorporada à PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP).

Desta maneira, os políticos foram forçados a escutar a voz que emana da classe trabalhadora, demonstrando que uma classe unida não pode ser calada. O resultado foi a comemoração de uma vitória histórica no Senado.

Por outro lado, o universo patronal e seus simpatizantes nutrem preocupações de ordem financeira. Como explica Jorge Soares, advogado trabalhista e sócio do escritório IW Melcheds Advogados:

“Para a empresa, isso significa aumento do valor de cada hora trabalhada. Em uma conta direta, a redução de 44 para 40 horas, com manutenção do salário, eleva em aproximadamente 10% o custo da hora.”

Diante disso, cabe questionar: qual é o valor da vida do trabalhador e da trabalhadora? Como esperar produtividade gerada pela exaustão e pela alienação da vida cotidiana? Existe produtividade sem ócio?

A realidade empírica evidencia que países que adotaram a superação de jornadas extenuantes observaram aumentos substanciais de produtividade, afinal, trabalhadores e trabalhadoras felizes e descansados produzem mais. Em reportagem publicada na Exame, a jornalista Layane Serrano entrevistou brasileiros que residem em países que aderiram ao fim da jornada 6×1 e trouxe o relato da advogada, médica e auditora fiscal do trabalho há 17 anos, Luciana Veloso Baruki:

“Minha experiência como auditora fiscal e médica reforça que o trabalho precisa ser visto como um elemento de realização, e não de adoecimento. Esse equilíbrio deve ser promovido por políticas públicas e pela conscientização das empresas sobre os riscos de insistir em jornadas desumanas.”

A diferença, portanto, não reside apenas no número de horas trabalhadas, mas na maneira como empresas e governos enxergam a relação entre produtividade e bem-estar. Estudos internacionais reforçam essa tese. Ainda na reportagem de Baruki, ela apresenta o dado de uma pesquisa da ONU que colocou a Finlândia pela 8ª vez consecutiva no topo do ranking dos países mais felizes do mundo, sendo que para alcançarem este status, a felicidade de seus cidadãos perpassa apenas a economia- que sabemos ser essencial- mas engloba a qualidade de vida, o tempo livre e espaço mesmo para desfrutar do vazio em tempos de aceleração e produtividade excessiva. De forma semelhante, experimentos promovidos na Islândia entre 2015 e 2019 com a redução da jornada semanal para escala 4X3 (sem diminuição salarial) apontaram melhora expressiva no bem-estar, redução do estresse e manutenção ou crescimento da produtividade.

Enquanto parte da sociedade brasileira se preocupa exclusivamente com as margens de lucro, a classe trabalhadora sofre na pele, nos corpos e nas psiques os efeitos de escalas desumanas. Em artigo publicado na CartaCapital, Amarílis Costa proferiu palavras das mais significativas e necessárias para a compreensão deste movimento:

“É a mulher negra que atravessa a cidade antes do amanhecer para abrir a casa de outra família enquanto seus próprios filhos ainda dormem. É a trabalhadora do supermercado que conhece os aniversários dos clientes, mas perde os dos filhos. É o jovem periférico que abandona a universidade porque precisa escolher entre estudar e pagar o aluguel. É a mãe solo que passa seu único dia de folga realizando o trabalho doméstico que a sociedade insiste em não reconhecer como trabalho.”

“[Defendemos] um Brasil onde a classe trabalhadora tenha acesso não apenas ao pão, mas à poesia. Não apenas ao transporte para o emprego, mas ao direito de viajar por prazer. Não apenas à sobrevivência dos filhos, mas ao tempo de acompanhar seu crescimento.”

Assim, a leitura do fim da escala 6×1 não pode ser permeada por medos corporativos ou temores eleitoreiros, mas deve ser feita a partir da humanidade e da valorização da vida. Trata-se de uma mudança que promove mais tempo das mães com seus filhos, dos pais com suas filhas, permitindo ao trabalhador e à trabalhadora tempo para ler, estudar e se organizar.

Claramente, essa aprovação sozinha não resolve todos os problemas estruturais, mas significa um avanço histórico. Comemoremos, portanto, sem jamais parar de lutar e perseverar por uma sociedade em que o ócio não seja visto como perda de tempo e na qual o trabalhador e a trabalhadora tenham, finalmente, o direito de sonhar, sorrir e, acima de tudo, esperançar.

*Por Thais Ribeiro Pinheiro – Graduada em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Mestranda em História pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO).

Referências e Fontes Consultadas

* *COSTA, Amarílis. O tempo de viver: o fim da escala 6×1 e o direito de não morrer trabalhando. CartaCapital, 2024. Disponível em: [CartaCapital](https://www.cartacapital.com.br/opiniao/o-tempo-de-viver-o-fim-da-escala-6×1-e-o-direito-de-nao-morrer-trabalhando/).

* *ORTIZ, Isabela; ZEM, Rafaela; MOURA, Rayane. Quando começa a valer o fim da escala 6×1. G1, 14 out. 2026. Disponível em: [G1 Globo](https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/10/14/quando-comeca-a-valer-o-fim-da-escala-6×1.ghtml).

* *SERRANO, Layane. Fim da escala 6×1: brasileiros contam como é trabalhar em países onde o modelo já é ilegal. Exame. Disponível em: [Exame.com](https://exame.com/carreira/fim-da-escala-6×1-brasileiros-contam-como-e-trabalhar-em-paises-onde-o-modelo-ja-e-ilegal/).

* *SOARES, Jorge. Declaração sobre os impactos custos/horas trabalhadas na redução da jornada. Citado em reportagem sobre o impacto econômico da alteração da jornada.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui