Agosto só está começando

O Brasil tem motivos para se preocupar com o mês de agosto. Foi num deles, o de 1954, precisamente no dia 24, que Getúlio Vargas se suicidou e levou o país a sofrer uma de suas mais graves crises institucionais.

No de 1961, dia 25, outro cataclismo: o instável presidente Jânio Quadros renunciava sete meses após receber a faixa e jogava o Brasil no cataclismo que desembocou na deposição de seu sucessor, o vice João Goulart, e a instauração da ditadura militar que vigorou de abril de 1964 até 1985, quando deixou o Palácio do Planalto pela porta dos fundos o último general-presidente, João Figueiredo, que se recusava a passar a faixa para o primeiro presidente civil eleito (indiretamente), José Sarney, depois de 21 anos.

Foi também num agosto (1969) que o segundo presidente do regime militar, marechal Costa e Silva, sofreu uma trombose cerebral. Foi substituído provisoriamente por uma trinca de generais – que Ulysses Guimarães apelidou de “os três patetas”. Eles abriram as portas para a eleição de Garrastazu Médici, o presidente que conduziu o mais negro período dos anos de chumbo.

Em agosto de 1976 morria num acidente de estrada, coberto por desconfianças, o ex-presidente Juscelino Kubitscheck (1956-1960), o construtor de Brasília, o homem que conseguiu apaziguar o país após os agitados anos que se seguiram ao suicídio de Vargas.

Para manter a regra azíaga do mês de agosto, o de 2016 foi marcado pelo impeachment de Dilma Roussef e pela posse de Michel Temer, que de interino passou a presidente definitivo. Só terminou seu mandato porque, em 2 de agosto de 2017, a Câmara Federal impediu a investigação por corrupção passiva que rolava contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em agosto de 2018, o deputado do baixo clero Jair Bolsonaro era oficializado candidato a presidente da República a bordo do nanico PSL. As pesquisas lhe davam baixos índices, parecia não ter chances. Uma facada no mês seguinte, a ausência nos debates, a fadiga de material da “velha política” e um discurso populista viraram o jogo. Jair acabou eleito, derrotando o desgastado lulopetismo afundado até o pescoço na Lava Jato.

O agosto de 2019 pode não trazer acontecimentos traumáticos a ponto de mudar o status quo. Mas promete começar quente. O Judiciário volta de férias nesta quinta-feira (1.º) com assuntos polêmicos na pauta e fora da pauta. No STJ pode-se decidir se Lula pode sair da PF em Curitiba e cumprir o resto da pena em regime semi-aberto. No STF, será levantado outro assunto sensível: foi acertada a decisão do presidente da Corte, Dias Toffoli, de suspender a ação que corre no Rio de Janeiro contra o filho do presidente Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro?

A imprensa e as mídias sociais continuarão em ebulição por conta dos hackers que dizem ter invadido as contas de Sergio Moro e de procuradores e vazado as mensagens para o site Intercept. Moro sobreviverá à fritura?

Quente será também o mês no Congresso Nacional, lugar apropriado no retorno do recesso para a reverberação das declarações estapafúrdias pronunciadas por Bolsonaro, principalmente nos dias finais de julho. De tão graves, como aquela em que revelou ter conhecimento acerca de desaparecidos durante a ditadura, há correntes formadas por juristas respeitados e políticos de diferentes matizes que identificam nas declarações o cometimento de crimes de responsabilidade – e, portanto, motivos para pedidos de impeachment.

O reinício da votação da reforma da Previdência, a colocação em mesa da reforma tributária e – eis um outro assunto de alta temperatura – a indicação do filho 02, Eduardo Bolsonaro, para embaixador nos Estados Unidos, farão do Congresso o palco de grandes embates.

Como em todos os anos, o mês de agosto tem 31 dias. Dias suficientes para que agosto confirme (ou não) sua má-fama.

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