A surpreendente noite em que Osmar desistiu de tudo

A carta-testamento em que Getúlio Vargas dizia “sair da vida para entrar na história” já estava escrita muito tempo antes da trágica manhã de 24 de agosto de 1954 em que ele disparou o tiro fatal em seu próprio peito. Bastou-lhe, na madrugada em que sentiu que perdera o apoio das Forças Armadas e solidão do poder, retirá-la do cofre para umas pequenas adaptações de próprio punho ao texto.

Ao tomar conhecimento do suicídio do “pai dos pobres”, a nação entrou em choque e virou-se contra os detratores que até a véspera faziam de tudo para tirá-lo da Presidência. Os ministros e amigos que horas antes o aconselhavam a renunciar também não esperavam pelo fim dramático do suicídio. Normalmente tido como um ato final de covardia, o suicídio de Vargas transformou-se em ato heroico, de coragem.

A carta-renúncia de Osmar Dias também devia estar escrita já há algum tempo. Guardava-a em segredo enquanto procurava desmentir os boatos de que poderia desistir a qualquer momento da disputa ao governo do Paraná, principalmente quando se viu abandonado pelo próprio irmão, o presidenciável Alvaro Dias.

Ao contrário de Getúlio, “forças armadas” da política paranaense marcharam para salvar a candidatura, que todos consideravam vitoriosa. Faltavam-lhe partidos? Tempo de televisão? Estrutura de campanha? Pois bem: na tarde e noite da véspera da renúncia, articularam-se rapidamente o PSB e o PPS para oferecer-lhe a tábua de salvação. O então candidato exigia mais: não queria que viesse no pacote qualquer aproximação com Beto Richa, postulante ao Senado pelo PSDB.

A condição foi aceita e marcada hora, no dia seguinte, para o grande anúncio: Osmar Dias poderia sair candidato forrado por um farnel considerável de partidos em sua aliança: PDT, SD, PSB, PPS e também, possivelmente, o Verde. Estaria assim municiado com todo um arsenal de apoios que poderiam levar as eleições do Paraná ao segundo turno, com vitória que se anunciava como certa sobre o oponente Ratinho Jr. (PSD).

Na calada da noite tudo mudou. Minutos antes da hora em que se anunciaria a aliança, as “forças armadas” tomaram conhecimento, pelo Contraponto, da carta-renúncia de Osmar. Tirou-a do cofre, talvez tenha feito algumas correções, e pregou a surpresa da desistência, mandando que ela fosse antes divulgada pela imprensa, sem uma palavra direta de explicação ou de agradecimento aos articuladores da salvação que lhe foi oferecida. Muito menos aos 30% de paranaenses que se mostravam dispostos a votar na mudança que ele pregava encarnar.

Claro, seguiram-se expressões – muitas delas impublicáveis – de decepção com o que todos entenderam como um gesto de covardia do então candidato, nada parecido com o ato heroico com que tentou justificar a desistência com as frases com que procurou defender as qualidades que diz possuir.

Seu gesto esfrangalhou um partido. Mais do que isto – entregou de bandeja um estado a um grupo político cujos métodos contradiziam a convicção que externou na carta: “Não negocio com o interesse público, não faço acertos perniciosos à sociedade para contemplar pessoas ou grupos políticos que não medem consequências nem custos para ter o poder e repartir suas benesses com amigos e parentes.”

Acabou fazendo tudo aquilo com que dizia não concordar. E saiu da vida política para entrar na eternidade do esquecimento.

 

6 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo belo texto, Nascimento. O “Neymar” Dias fugiu do debate num momento crítico da vida política em nosso país. 40 segundos no horário eleitoral são mais do que suficientes para propagar idéias caso ele tivesse alguma.

  2. Osmar Dias engessou o PDT PR durante anos, com sua insegurança e teimosia. Era “longa manus” do irmão. Sua tratativa com o eleitor (e correlegionarios) era lamentável. Talvez sua Saúde inspire cuidados, daí o ato derradeiro, que deixa rato solto no paiol, livre para suas trampolices.

  3. Osmar tem a “síndrome de estocolmo”, aprendeu a depender de Requião, seu agressor e intimidador. E quando resolve ficar independente de Requião, fica inseguro e não segue adiante. Vejam o quanto esse Requião faz mal para a vida do povo paranaense: além de ser um político atrasado, ultrapassado, assistencialista, ainda consegue tirar do cenário eleitoral um político de valor como Osmar Dias.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui