A morte da independência?

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“Como se pretende escravizar o Brasil com aparências liberais, mais transparentes que o vidro? Todo o projeto que ataca a opinião pública não pode ter consistência duradoura. O Brasil quer ser livre; e tem o exemplo em todos os nascentes Estados que o rodeiam. Este é e deve ser o voto nacional. Tudo o mais são puerilidades e inconsequentes sandices do orgulho cego, e do estúpido corcundismo. Fujam de nós os Ápios embuçados no capote dos Gracos[i]: os homens avisados os conhecem, e todo o Brasil em curto tempo também os desmascarará.” – José Bonifácio (1763-1838); Apontamentos políticos.

Por Estevão de Rezende Martins*  –  Estamos a dois anos de completar 200 de independência de Portugal. Nada que já não se saiba (ou se deveria saber…). O valor simbólico construído do 7 de setembro representa um marco na memória histórica brasileira – como outras efemérides análogas.

“Laços fora!”, teria exclamado o príncipe regente Pedro de Alcântara, ao aderir enfim ao movimento separatista, arrancando assim do peito as cores de sua pátria original, Portugal. Nascia assim uma nova pátria, a que pertencemos.

Ser patriota é identificar-se com seu país e sua sociedade, com seus valores, com sua história, com sua língua  – incluindo altos e baixos, o útil e o agradável, o nocivo e o benfazejo – sabendo, contudo, nela existir a riqueza da variedade das gerações, dos gêneros, dos gostos, das crenças, das preferências.

Ser patriota não é diabolizar o outro porque pense ou seja algo diferente.

Ser patriota é reconhecer que um “eu” só pode existir em um oceano de “nós”. Ser patriota é entender que a divergência não transforma o concidadão em inimigo mortal, a ser exterminado.

Ser patriota é entender que seu país e sua cultura só conseguiram emergir, consolidar-se e desenvolver-se no cadinho efervescente e encantador de sua história, à custa de sucessos e fracassos, de alegrias e de dores, em um mundo que vagarosamente se foi estreitando, cujo percurso progride com lentidão, mas com regularidade, ao ritmo do reconhecimento do outro, interna e internacionalmente.

“Patriotismo” não merece ser sequestrado maliciosamente por indivíduos, corporações ou mandatários.

Ser patriota não é brega nem retrógrado, mas não pode ser pretexto para considerar-se mais e melhor do que qualquer outro. Patriotismo não pode ser alegada arma para excluir e esmagar o diferente e o divergente.

Quem chamar o cidadão a ser patriota por condenar, execrar ou excluir seus concidadãos em algum tipo de anátema extemporâneo é o primeiro a abrir mão de sua independência e a optar pela morte moral, política e cívica.

Patriotismo de exclusão, bravata ou agressão passou, e passou de vez.

O 7 de setembro é uma data simbólica que mereceria outros tempos para ser comemorada dignamente. E não seria por causa da pandemia que os festejos ficariam prejudicados. Ficam-no, isso sim, pelos que ocupam o governo e outros cargos de relevância na República, que apequenam o país e seu povo. E que não estão à altura de tal data magna na história do Brasil.

Declarações reiteradas do governo atual parecem proclamar a morte da independência do Brasil, cujo destino estaria na mão de ‘entreguistas’ de nova geração de vendilhões, que preconizam humilhante genuflexão e cabeça baixa perante potência do Norte. A que porão da ignomínia desceremos ainda?

Ser independente é ter consciência de suas potencialidades e capacidade de tomar suas decisões com autonomia, no interesse superior de sua sociedade. Tal não exclui alianças, parcerias, negócios, transações políticas, econômicas, comerciais, culturais e assim por diante – mas sem subserviência nem cegueira.

Alinhamentos automáticos e míopes somente trazem prejuízos. Em qualquer posição do espectro político ou da doutrina econômica. O dogmatismo teimoso é o pior dos flagelos. Nada há de errado em ter sócios preferidos, que coincidam em opção política ou em teoria econômica. Preservar a capacidade de relacionar-se multilateralmente, contudo, é um trunfo difícil de se obter e infelizmente fácil de se perder.

Tomara a consciência social no Brasil de 2020 coloque no resultado das eleições municipais o sinal de esperança de que os rumos se hão de corrigir.

[1] Ápios: alusão à proteção dos privilégios; Gracos: referência às reformas populares.

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* Estevão de Rezende Martins, historiador, é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

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