‘O novo pode ser um Hitler’, diz Dilma

Entrevista de Dilma Roussef à BBC Brasil. Leia alguns dos trechos mais preciosos:

O novo pode ser um Hitler’, diz Dilma sobre renovação na política

Um ano depois do processo de impeachment que a retirou da Presidência da República, Dilma Rousseff afirma que o país não necessariamente precisa de uma novidade na disputa presidencial de 2018. “O novo pode ser um Hitler. Não há garantia nenhuma”, diz.

Em entrevista à correspondente da BBC no Brasil, Katy Watson, ela garante que não irá se retirar da política, mas não confirma os rumores de que se candidatará a deputada ou a senadora no próximo ano.

BBC – Como a senhora avalia a situação do Brasil?

Dilma Rousseff – O Brasil passa por uma situação extrema, drástica. Não tenho conhecimento de um momento tão difícil na vida política econômica e social do Brasil. Insistem numa política fiscal que está levando as creches ao fechamento, uma parcimônia de recursos absurda, com hospitais fechando, enfim, uma situação muito grave com perda de direitos na área social.

Para se ter uma ideia, quando saí do governo, o Bolsa Família abrangia 13,9 milhões de famílias. Hoje, numa situação de crise, são 12,7. Todos os programas sociais que nós fizemos estão sofrendo redução.

Por exemplo, um programa importante como o Minha Casa, Minha Vida, para as pessoas que mais precisam, que são aquelas que moram em fundo de rio, sofrendo enchente, ameaçadas, está sendo desestruturado em nome de uma pretensa eficiência. Numa gestão que hoje mesmo está discutindo que não vai cumprir o deficit que se propôs.

Além disso, você tem uma grave situação política, com o governo inteiro envolvido em acusações sérias de corrupção. O grande orquestrador do governo, a mesma pessoa que presidia a Câmara na época do meu impeachment (Eduardo Cunha, do PMDB), está preso em Curitiba. Ele (ainda) controla uma parte do Congresso. Uma situação que só posso ter palavras muito negativas para descrever.

BBC – A senhora se sente responsável pela situação em que o país está?

Dilma Rousseff – Um país entra em crise levado por uma conjuntura. Nós evitamos por seis anos a crise econômica que atingiu todos os países da Europa e EUA, em 2008 e 2009, cuja responsabilidade é do absoluto descontrole financeiro.

No Brasil tivemos uma política anticíclica assim como outros emergentes, como a China, por exemplo. E sofremos uma grande ameaça no final de 2014, quando a crise chegou aos emergentes. O preço do petróleo despencou juntamente com o preço de todas as commodities.

BBC – O ex-presidente Lula foi condenado na Lava Jato. Então, em que o PT é melhor do que outros partidos?

Dilma Rousseff – A diferença é que a acusação do Temer tem vídeo, que mostra a mala. Do que acusam o Lula? De ter um apartamento que não está no nome dele. Que está no nome da empresa. E que a empresa deu esse apartamento como garantia para um banco. Mas podia não ser propriedade dele. Ele nunca usou esse apartamento.

BBC – A senhora acredita que Lula é a resposta que o Brasil precisa? O país não precisa de um novo líder, sangue novo?

Dilma Rousseff – Desde quando o novo é necessariamente novo em relação a um conceito positivo? O novo pode ser um Hitler. Não há garantia nenhuma. O povo reconhece o Lula porque durante o governo do presidente o povo viveu melhor. Não tem nenhuma manipulação.

Nós sabemos que a democracia tem suas falhas, mas continua sendo o melhor regime possível. Eu acredito que eles não vão simplesmente tirar o Lula da eleição. Tem a 3ª fase do golpe, que é implantar o parlamentarismo. Que já perdeu em plebiscito duas vezes. E esse processo vai vir com a tentativa de manter o controle político conservador do Congresso.

BBC – A ideia de que “sem Lula o PT não é nada” te preocupa?

Dilma Rousseff – No Brasil, somos o único partido reconhecido pela população. Nós temos 18% da simpatia. O próximo só tem 6%. Que história é essa que não tem partido, só tem Lula? O PT representa uma corrente progressista de esquerda, com uma composição bastante diversificada. Tem trabalhadores, classe média.

BBC – Quem seria o candidato do PT caso Lula não concorra?

Dilma Rousseff – Primeiro, nós teremos um grande empenho para o Lula ser candidato.

BBC – Há muito tempo o PT apoia o governo da Venezuela. Recentemente, a presidente do partido, Gleisi Hoffman, reafirmou o apoio. Qual é a sua opinião sobre isso?

Dilma Rousseff – Eu vi a Venezuela antes do Hugo Chávez. Eu acho que Chávez foi o grande líder. Ele teve a sorte de pegar a evolução do preço do barril do petróleo chegando a US$ 140. Uma situação bastante confortável. Quando o preço começa a cair, não é só a Venezuela que sente. E aí a situação começa a ficar difícil.

Acho que o presidente Nicolás Maduro não tem a mesma estatura do Chávez. E com isso eu não estou fazendo nenhuma análise de valor. São pessoas diferentes. Acho que o Maduro pegou a Venezuela numa situação extremamente drástica, com uma queda violenta do preço do petróleo, que é um elemento fundamental no orçamento dele. Pega sem recursos, com crise elétrica…

Então, você corre um risco imenso. Porque a Venezuela é um país dividido. O que se tem que se tentar é uma saída não sangrenta. Se continuar do jeito que está, vai ter guerra civil na Venezuela.

Eu acredito que a visão que se divulga no Ocidente a respeito da Venezuela é irresponsável. Acho um absurdo o tratamento da imprensa internacional à Venezuela. Vão criar, aqui na América Latina, depois de 140 anos de paz, um grande conflito armado, assim como fizeram no Iraque e no Afeganistão.

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