(por Bruno Boghossian, na Folha de S.Paulo) – Na sexta-feira, o porta-voz do Planalto fez questão de relatar à imprensa que Jair Bolsonaro havia conversado por telefone com Hamilton Mourão. O governo preferiu ser vago. Informou apenas que os dois discutiram “alguns assuntos” e trocaram impressões sobre uma nebulosa “integração de ações governamentais e de planejamentos futuros”.

Não se sabe se a ligação durou mais do que os 40 segundos gastos pelo assessor para dar a notícia. Ninguém contou, também, se a dupla teve tempo de trocar algumas palavras sobre o inesperado encontro de Mourão com dirigentes da CUT.

Ao abrir o Planalto para um grupo historicamente alinhado ao PT, o vice reforçou a sensatez com que exerce o cargo, mas também cometeu um ato quase transgressor para demarcar mais uma diferença em relação a Bolsonaro. A distância política entre os dois é cada vez maior.

O presidente nunca escondeu seu desapreço pelas centrais trabalhistas. Em novembro, após vencer a eleição, ele ironizou essas corporações: “A vida de sindicalista é muito boa. É ficar lá, só engordando”. Meses antes, o filho Eduardo fizera um discurso na Câmara em que chamava integrantes da CUT de “vagabundos”.

Mourão, ao contrário, disse aos sindicalistas que gostaria de liderar a interlocução do governo com movimentos sociais, segundo o relato de um dos participantes do encontro.

A última semana delineou uma ruptura entre o núcleo bolsonarista e o vice. Depois que a revista Época noticiou que Mourão havia debochado dos livros de Olavo de Carvalho, o ideólogo chamou o general de “charlatão desprezível”. No dia seguinte, os filhos Carlos e Eduardo mostraram de que lado estão: apoiaram Olavo e disseram que ele foi responsável pela vitória de Bolsonaro.

Quando João Figueiredo se internou nos EUA para uma cirurgia em 1981, ele recebeu 72 ligações durante 16 dias. Nenhuma delas partiu do vice Aureliano Chaves, com quem o presidente mantinha uma relação de desconfiança. Bolsonaro e Mourão ao menos ainda se falam ao telefone.